A Noite Americana

11/05/2012

Quem assistiu “A Noite Americana”, ou pelo menos já ouviu falar a respeito, sabe disso, mas não custa repetir: no filme, François Truffaut declara o seu amor pelo cinema. E, vejam bem, pelo cinema com todas as suas falhas possíveis.

O filme conta a história da produção de um outro filme, “Je vous presente Pamela”, sobre uma mulher que se apaixona pelo sogro e decide fugir com ele. O longa conta com a direção de Ferrand, que não é ninguém menos que o próprio Truffaut. Não daria para ser mais metalinguístico.

No decorrer das filmagens, surgem praticamente todas as dificuldades possíveis: atores com egos desproporcionais, problemas pessoais nos bastidores, um gato que “não sabe atuar” e até mesmo um acontecimento irreversível, que implica improvisações no roteiro e alterações no cronograma.

Para quem se encanta com a magia de sentar em uma sala de cinema e acompanhar, envolvido, o desenrolar de uma trama, também deve se sentir encantado em ver como toda essa “magia” acontece. E não é nada fácil, com tantos equipamentos, atores, figurantes, detalhes de roteiro, improvisos e mudanças de última hora.

O que Truffaut nos mostra em “A Noite Americana” é que fazer cinema pode ser tão encantador quanto o cinema em si. E também, como tudo que existe, tem sua dose de problemas, que aprendemos a contornar buscando o resultado final.

Afinal, como diz o próprio Ferrand, “fazer um filme é como uma viagem de carroça pelo Velho Oeste. Você começa rezando por uma viagem tranquila. Depois, quer chegar logo”. Mas nós, enquanto espectadores de um bom filme, acabamos é esperando que ele não acabe tão cedo.

Texto escrito por Andrea Maciel para exibição do filme A noite Americana em 08/05/2012.


A noite americana

05/05/2012

François Truffaut (1932-1984) e Jean-Luc Godard são os dois nomes mais expressivos da Nouvelle Vague, escola francesa dos anos 60 e 70. Aliás, se não fosse a grande herança revolucionária deixada por Georges Méliès (1861-1938) e pelos irmãos Louis (1864-1948) e Auguste Lumière (1862-1954), os dois “jovens terríveis” seriam também os mais importantes cineastas da história da França.

Habitualmente, os filmes da dupla são relançados no Rio e em São Paulo pelo Grupo Estação. E a distribuidora teve uma inteligente sacada ao reexibir, há algumas semanas, O Desprezo (Le Mépris, 1963), de Godard, e agora A Noite Americana (La Nuit Américaine, 1973), de Truffaut. Explica-se. Ambos os filmes são metalingüísticos, tratam do próprio cinema e das engrenagens da indústria. E como a narrativa e a estética dos dois diretores são bem distintas, a comparação entre as duas obras ilustra de maneira única essas diferenças estilísticas.

Godard é experimentalista e provocador por excelência. Truffaut, um apaixonado incorrigível. E isso fica evidente nos dois trabalhos. Enquanto O Desprezo atirava em várias direções (exploração da imagem de Brigitte Bardot, da incomunicabilidade entre as pessoas, dos vícios de Hollywood, das analogias com mitos gregos), A Noite Americana reserva o humor irônico para alguns momentos isolados – e se ocupa, realmente, de prestar uma homenagem sincera ao cinema. O próprio título é um termo técnico: “noite americana” é o processo de filmar uma cena noturna em plena luz do dia.

A trama acontece em meio à rotina de gravações do romântico Apresentando Pamela, o filme dentro do filme, dirigido por um certo Ferrand (o próprio Truffaut). Assim, os obstáculos mais triviais de uma produção ganham o primeiro plano: atrasos de prazo, negociações com produtores, administração de egos do elenco, mudanças de última hora… Aos poucos, uma produção banal e de provável fracasso – a história de um jovem que perde a noiva para o pai – se transforma num grande épico nos bastidores, tamanho a número de problemas sofridos até a sua finalização.

Não é necessário ser um grande erudito para apreciar A Noite Americana, um filme direto, didático, transparente. Mas a compreensão das tiradas mais inspiradas pede um certo conhecimento de cinema. A melhor delas: uma atriz decadente, já baleada por algumas taças de vinho, não consegue decorar algumas linhas de texto; depois do terceiro ou quarto take, ela dispara “podemos fazer como Fellini, eu interpreto a cena falando números… treze, vinte e quatro, cinquenta”. Bem a seu simpático modo, Truffaut satiriza assim a tradição da dublagem presente nos filmes italianos.

Nesse passo despretensioso, surgem personagens caricaturais e cativantes, como o contra-regra mulherengo, a deslumbrante estrela com ataques de choro, o veterano galã homossexual ou o jovem astro com problemas conjugais, cuja namorada continuísta foge com um dublê. E surgem também outras seqüências antológicas. Como aquela em que a equipe toda se empenha em fazer um simples gato beber leite num pires. Repare que, quando o felino rebelde finalmente obedece, o filme fictício e o filme real se confundem. Nós respeitamos a catarse daquela pequena “proeza”, como se estivéssemos parados ao lado da cadeira do diretor no exato momento da filmagem.

Esse é o presente de Truffaut, o menino cinéfilo que se tornou um mestre: colocar o espectador no lugar do cineasta e cochichar aquilo que ele tem de mais íntimo, a sua paixão profissional.

Texto escrito por Marcelo Hessel, no Omelete.


A Noite Americana mostra que o processo de criação de cinema pode ser tão ou mais interessante que o resultado final

02/05/2012

Existem muitas provas de amor ao cinema feitas pelo próprio cinema. Da romântica homenagem feita por Woody Allen em A Rosa Púrpura do Cairo ao sensível Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, o próprio cinema se vê alvo de objeto de afeição, mas nenhuma declaração se compara à feita por François Truffaut em A Noite Americana.

Trespassando o clichê do filme dentro do filme de forma, Truffaut faz tudo o que tem direito: experimenta na montagem, abusa do som, brinca com enquadramentos, satiriza o star power e participa da própria brincadeira, atuando. O personagem? Um diretor de cinema, claro. Um diretor sábio, serene e apaixonado pelo que faz, como o próprio Truffaut foi.

Na produção de “Je Vous Presente Pamela”, o tal filme dentro do filme, somos apresentados a uma infinidade de situações que afetam a realização de um filme: romances, traições, crises de estrelismo, alcoolismo, gravidez e até uma morte, interferindo diariamente no cotidiano de cada um dos envolvidos e no próprio cronograma de filmagem. A Noite Americana acaba por representar, então, um tipo determinado de produção atrelado àquele papo de que o diretor é o autor. Uma forma consagrada de fazer cinema que Truffaut foi um dos maiores expoentes; uma forma de fazer cinema padrão na França e na própria Europa; bem diferente da forma americana de produção – basta comparar com O Jogador, do Robert Altman, que trata do mesmo tema.

Pode-se taxar A Noite Americana como didático, mas jamais desprovido de uma paixão intrínseca. Truffaut aproveita-se até para homenagear seu ídolo e mentor, Orson Welles, utilizando-se do sonho de Ferran, o tal diretor (ou seria o próprio Truffaut?) roubando cartazes de Cidadão Kane das portas dos cinemas. Algo que ele confessadamente fez quando jovem. Toda essa reunião de experiências, que age diretamente sobre a percepção de quem está assistindo ao filme, denuncia uma vontade inesgotável de aproximar cinema e a vida. Nem que seja uma vida camuflada, como o filtro usado em lentes das câmeras para transformar noite em dia e que dá nome ao filme. Não há maior metalinguagem que essa.

E A Noite Americana mostra que o processo de criação pode ser tão ou mais interessante que o resultado final. É isso que o filme revela para seu público.

Texto escrito por Andy Malafaya no Cineplayers


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