A Máquina*

30/06/2009

De engrenagens e bobinas.

A Máquina, o livro, filme, peça, não trata de engrenagens, fios, placas de metal, circuitos ou bobinas. Não é desse tipo de máquina.

A Máquina, livro, filme, peça, é de máquina-homem e máquina-mulher. Máquina-corpo. Máquina-coração, que bate mais rápido. Máquina-pulmão, que ofega. Máquina-tempo-que-não-é-do-tempo. Máquina-mundo. Máquina-eu. Máquina-você. Máquina-antônio-e-karina. Máquina-amor.

A Máquina, livro, filme, peça, tem a ver com tempo. Tem a ver com confundir tempo de horas com tempo de chuva. Porque A Máquina, livro, filme, peça, é sobre palavras. E olhe que nem entra nessa bagunça de dizer que ‘no princípio havia o Verbo’.

A Máquina, livro, filme, peça, é sobre torcer o mundo. A Máquina-mundo. Para funcionar de um jeito bonito de se ver, fazendo o povo todo rir que só vendo com todas essas coisas bobas de amor que a gente morre de vergonha de dizer que sente.

A Máquina, livro, filme, peça, é sobre um menino e uma menina. O menino quer a menina e a menina nem sabe que quer o menino. Mas a menina quer o mundo e o menino, que não é besta nem nada, vai lá buscar o mundo para a menina que isso não é serviço pra moça daquela idade.

A Máquina é livro porque é palavra. A Máquina é peça porque é emoção de verdade. A Máquina é filme porque é imagem.

A Máquina, o livro, o filme e a peça, é tudo isso e se você quiser, pode ser ainda mais.

*Texto do programa distribuído durante exibição de “A Máquina”, no dia 29 de junho de 2009.


Hoje tem A Máquina

29/06/2009

Só para avisar: hoje tem ‘A Máquina’ (2006), filme dirigido por João Falcão baseado no livro de mesmo nome de Adriana Falcão. Exibição a partir das 18:30 hs na UTFPR.

“Pela segunda vez então Antônio sentiu um medo medonho, mas seu coração disse pra sua cabeça, vá, e sua cabeça disse pra sua coragem, vou, e sua coragem respondeu, vou nada, mas seus olhos não ouviram e resolveram que era a Karina de antes que eles queriam ver, não a de agora, se é que essa existisse, e, se essa existisse, ele prefiria não saber como ela era.”

amaquina


Entrevista com Adriana Falcão para TPM

30/05/2009

No mês de março, a TPM (Trip para Mulheres) publicou uma entrevista com Adriana Falcão, autora de A Máquina. Fomos no site e pegamos a entrevista pra vocês conferirem na íntegra. Dá pra ler por lá também, que tem fotos, aqui!

Adriana Falcão

Carioca de 48 anos, Adriana Falcão conseguiu a façanha de viver da escrita no Brasil

Sabe as maluquices da dona Nenê, interpretada por Marieta Severo em A Grande Família? Muitas delas vêm de Adriana Falcão, uma das roteiristas da série. Carioca de 48 anos, ela conseguiu a façanha de viver da escrita no Brasil. Publica livros, artigos em jornais e coloca os sabores de sua vida nos personagens que cria. Tudo porque aprendeu a olhar com humor para os dramas que vivenciou, como o suicídio do pai e, depois, a morte da mãe. Sinta o frio na barriga de seus altos e baixos na entrevista a seguir

Há alguns anos a escritora Adriana Falcão, 48, visitou uma taróloga e ouviu: “De acidente aéreo, você não morre”. Na época, duas de suas filhas foram para Londres fazer intercâmbio. Adriana não titubeou: “Vou junto!”. “Pensei que, se fosse com elas, o avião não cairia.” Ela levou o plano adiante. Só que, como a vida às vezes parece seriado, Adriana acabou no avião errado, sozinha. “Deu uma confusão no aeroporto e eu fui até Londres chorando, achando que o avião delas iria cair.”

A história poderia ser tema do seriado A Grande Família, que Adriana ajuda a escrever há oito anos, desde a estreia. “Sou a Nenê”, diz a loira de olhos azuis, referindo- -se à personagem da mãe meio histérica interpretada por Marieta Severo.

O episódio, no caso, o real, diz muito sobre a escritora, autora de 11 livros, entre eles A Máquina (da editora Objetiva, que virou sucesso no teatro e no cinema nas mãos de seu marido, o diretor João Falcão, e revelou atores como Wagner Moura e Lázaro Ramos), Mania de Explicação, que, na primeira edição, vendeu 60 mil exemplares de 2001 até hoje, e o infantil Sete Coisas para Contar e se Divertir!, lançado em novembro de 2008 – os dois últimos pela editora Salamandra. Há quatro meses, ela é também colunista de O Estado de S. Paulo. A história mostra que Adriana sabe rir de si mesma, é exagerada, supermãe e ansiosa, muito ansiosa, como ela fez questão de lembrar várias vezes durante a entrevista.

Um pouco maluca
Adriana garante que a ansiedade é herança de família. E conta, com tranquilidade, que seu pai, depressivo, se matou quando ela tinha 18 anos. Sua mãe, ansiosa, morreu de overdose de calmantes (ou engasgada de tão grogue que estaria por causa dos remédios) quando a escritora tinha 31. “Sabemos que isso tem componente genético.”Apesar de ter tido uma infância complicada – “eu estava sempre preocupada com meus pais, cuidando deles”– essa carioca criada em Recife não é de reclamar.“Tive pais maravilhosos, que me deram coisas incríveis, tenho um casamento feliz há 20 anos e vivo de escrever. Mas tinha que ser um pouco maluca”, diz a mulher de João e mãe de Isabel, 16, Clarice, 19, e Tatiana, 29.

A história de Adriana daria um filme (não dá para fugir do clichê). Além de ter lidado com a morte trágica dos pais, ela casou aos 17 anos com seu professor de matemática, engravidou aos 18 e cursou arquitetura porque “tentou passar em primeiro lugar no vestibular”. Virou publicitária e estava feliz em Recife. Até que o atual marido, há dez anos, decidiu mudar para São Paulo, e depois para o Rio, cidade que Adriana adotou apesar de detestar calor.

Ela conversou com a Tpm em seu escritório. Fechou as portas e ligou o ar-condicionado, apesar da vista para o Leblon. Acendeu incenso, fumou, tomou café, Coca-Cola e comeu chocolate. “Hoje corri na esteira. Tenho direito”, decretou, pouco afeita às regras de um mundo politicamente correto sem prazer e sem gosto.

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A Máquina – ficha técnica

29/05/2009

Ah, o amor...

Título original: A Máquina
Gênero: Drama
Duração: 90 min.
Ano de lançamento: 2006
País: Brasil
Estúdio: Diler & Associados
Distribuidora: Buena Vista International
Direção: João Falcão
Roteiro: João Falcão e Adriana Falcão, baseado em livro de Adriana Falcão e em peça teatral de João Falcão
Produção: Diler Trindade
Música: DJ Dolores, Chico Buarque e Robertinho do Recife
Fotografia: Walter Carvalho
Direção de arte: Marcos Pedroso
Figurino: Kika Lopes
Edição: Natara Ney
Elenco: Paulo Autran (Antônio – no futuro), Gustavo Falcão (Antônio – jovem), Euclides Pegado (Antônio – 5 anos), Mariana Ximenes (Karina), Vladimir Brichta (José Onório), Cristiane Ferreira (Maria da Graça), Wagner Moura (Apresentador de TV), Lázaro Ramos (Doido).

Sinopse:
Em Nordestina, cidadezinha perdida no sertão, “Karina da rua de baixo” (Mariana Ximenes) sonha em ser atriz e partir para o mundo. Antes que seu amor lhe escape, “Antônio de Dona Nazaré” (Gustavo Falcão) adianta-se numa cruzada kamikaze para trazer o mundo até Karina. Uma história em que os sonhos contradizem a realidade, as condições geográficas e políticas ameaçam conter a vida, e o amor desempenha o papel de elemento transformador.


A Máquina

28/05/2009

Começando os trabalhos em relação ao próximo filme exibido, “A Máquina”, dirigido pelo João Falcão e escrito pela Adriana Falcão, vamos falar um pouco de prosa-poética.

A Adriana não inaugura o estilo, mas temos que admitir que ela é uma exímia artífice. A ideia é escrever em prosa, utilizando elementos da poesia para gerar significado. O resultado?

Segue, aqui, um pequeno trecho de um de seus livros, chamado “Mania de Explicação”:

Solidão é uma ilha com saudade de barco.

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.

Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.

Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer “eu deixo” é pouco.

Pouco é menos da metade.

Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.

Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro da sua cabeça.

Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.

Agonia é quando o maestro de você se perde completamente.

Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento.

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.

Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.

Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.

Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

Renúncia é um não que não queria ser ele.

Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.

Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente.

Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.

Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.

Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.

Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.

Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.

Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.

Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é fevereiro.

Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.

Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.

Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.

Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.

Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.

Perdão é quando o Natal acontece em maio, por exemplo.

Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.

Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.

Desatino é um desataque de prudência.

Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.

Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.

Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

Emoção é um tango que ainda não foi feito.

Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.

Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.

Desejo é uma boca com sede.

Paixão é quando apesar da placa “perigo” o desejo vai e entra.

Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero…Também não. É um desaforo… Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?

Esse estilo, telegráfico e multisígnico, gerou um outro livro similar, que é o “Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento”. Tão bom quanto.

Ah! Em tempo, o trailer do filme:


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