“E essa sensação de ousadia que não cessa!”

26/06/2012

Quase tudo já foi dito sobre “8 ½”, o filme do diretor Federico Fellini. Já disseram, por exemplo, que Fellini deu este título como uma referência à sua carreira na qual   ele até então já havia dirigido seis longa-metragens, dois episódios de filmes e havia co-dirigido um longa-metragem. Já ouvimos dizer também que o filme é autobiográfico com cenas retiradas da vida de Fellini. Segundo o próprio Fellini, algumas cenas foram gestadas em seus sonhos! Sonhos, recordações, desejos e imaginações no contexto da crise criativa de um artista que tem que continuar produzindo, cenas que rememoram o passado da personagem que conduz a trama, Guido Anselmi (Marcello Mastroianni), que funciona como o alter ego de Fellini.

“8 ½” é  um filme sobre os meandros que cercam o processo criativo, a angústia presente nos dias e noites que o artista passa a viver quando precisa cumprir prazos. Guido Anselmi resolve se internar em uma estação-de-águas para buscar inspiração. Aqui temos talvez  a melhor das experiências com a metalinguagem  no cinema. Conta-se que o próprio Fellini estava vivendo uma crise criativa. Usar o seu protagonista, um diretor de cinema, pra falar da sua crise pessoal com o cinema é sem dúvida um golpe ninja que só um grande diretor saberia utilizar.

Até aqui falávamos sobre as impressões que estão apenas a um clique de distância, se não a todos a quase todos nós.

Antes de formalizar o convite para que sentemos confortáveis e dispostos a mergulhar neste universo mágico onde habitam os clássicos, eu vos convido: no corredor do meio perto da varanda há um conjunto de cenas, magistralmente concebidas, que valem por elas mesmas. “8 ½” é sem dúvida uma daquelas obras que cabem em qualquer contexto atual.

E agora estamos afoitos por engavetar Fellini no lugar dos clássicos, estamos? Bom, talvez fosse melhor avisar que ao se ver um filme de Fellini fica uma sensação de que as coisas estagnaram, porque em tempos de super produções e todos os efeitos especiais, azuis multicoloridos e ‘multibrilhantes’ , quando vemos uma história bem contada sem necessariamente ser uma história muito boa, há muito mais ousadia e brilha infinitamente mais. Ousadia encontrada no preto e branco! E isso não é qualitativo, o melhor e o pior raramente estão ligados ao tempo. Aliás, ledo engano de quem classifica a ‘boa arte’ pela linha do tempo, o que é bom geralmente é universal e atemporal, mas isso também, ainda bem, não é uma regra.

“Será que há algo tão claro e justo no mundo que mereça viver? Estamos sufocados por palavras, por imagens e por sons que não têm nenhuma razão de ser, que saem do nada e se dirigem para o nada. Que monstruosa presunção achar que seria útil para alguém o esquálido catálogo dos seus erros… E de que lhe adiantaria unir os farrapos de sua vida, suas vagas lembranças e os rostos daqueles que nunca souberam amar?”

Do filme “8 ½“ do cineasta italiano Federico Fellini. O filme é de 1963, mas as palavras nunca foram tão atuais. 


Texto escrito por Sol Sloboda para exibição do filme 8 1/2 em 12/06/2012.

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8 1/2: Fellini conta a história, e ela fala de você

11/05/2012

8 1/2 tem um dos finais mais estupendos ? e surpreendentes ? da história do cinema. Guido Anselmi (Marcello Mastroianni), o cineasta em crise, dirige, ele próprio, a cena de sua vida, a ciranda na qual entram todos os personagens que viveram em conflito ao longo da sua história. O pai, a mãe, as diversas mulheres, o produtor, a igreja, as prostitutas, amigos e desafetos. Tudo se concilia, ao som de uma das fabulosas marchinhas circenses de Nino Rota.

Esse desfecho é uma epifania. Expressando o que sentia Fellini (Guido Anselmi não é mais que seu alter ego), vai ao encontro do sentimento mais íntimo do espectador. Afinal, quem já não sonhou em juntar pessoas e situações absolutamente inconciliáveis? A esposa e a amante. O pé no chão e o direito de sonhar. O resgate da figura materna e a pacificação com o personagem paterno. Pergunte a um psicanalista e ele dirá que essa soma de impossíveis vive, como desejo, no fundo do inconsciente de cada um. Por isso Fellini, com seu 8 1/2, toca tão fundo. A poucos filmes se aplica tão bem a frase latina de Horácio ? “De te fabula narratur”. A história fala de você.

Fala, claro, de todos nós, pois essa é a universalidade da grande arte. Mas fala, também e especificamente, de uma situação vivida por Federico Fellini, e que qualquer artista enfrenta em determinado momento da sua trajetória ? o chamado bloqueio criativo. Àquela altura do campeonato, Fellini havia dirigido um longa em parceria (Mulheres e Luzes, sua estreia, com Alberto Lattuada), seis longas-metragens-solo e dois episódios em filmes coletivos (O Amor na Cidade e Bocaccio 70). Em 1960, lançou uma das suas obras-primas, A Doce Vida, Palma de Ouro em Cannes, sucesso e escândalo mundiais, filme dos filmes, definitivo retrato de uma época e uma mentalidade.

O que fazer depois, sem a sensação de se repetir? Desafiado, Fellini cava em si mesmo e leva para a tela fantasmas e lembranças de infância, juventude e maturidade. Projeta essa memorialística imaginada em um personagem criado à sua maneira. Refaz sua história (real) através da ficção e sai da crise criativa… com o mais criativo filme de todos os tempos. Golpe de gênio. Fellini é como um faixa preta em judô que faz a força do oponente voltar-se contra ele próprio. Um detalhe engraçado é que os produtores queriam que ele separasse em cores e preto e branco as cenas da realidade e da fantasia ? para que o público as distinguisse. Fellini recusou. Para ele, os dois níveis da experiência humana eram equivalentes. Sonhar também é viver.

Texto de Luiz Zanin, do Cinema, Cultura e Afins.Imagem


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