Hoje tem Jogo de Cena

27/09/2011

O projeto Terça tem Cinema exibe em setembro o filme Jogo de Cena.

Dia: 27 de setembro
Hora: 18h30
Local: Miniauditório do Campus Curitiba da UTFPR

Confira ficha técnica.

Ficha técnica

Título original: Jogo de Cena
Gênero: Documentário
Duração: 105 min
Ano de lançamento: 2007
País: Brasil
Direção: Eduardo Coutinho
Elenco: Marília Pêra, Andréa Beltrão, Fernanda Gomes, Mary Sheyla, Gisele Alves Moura, Débora Almeida, Sarita Houli Brumer, Lana Guelero, Jeckie Brown, Maria de Fátima Barbosa, Aleta Gomes Vieira, Marina D’elia, Claudiléa de Lemos

Sinopse
Atendendo a um anúncio de jornal, oitenta e três mulheres contaram suas histórias de vida num estúdio. Em junho de 2006, vinte e três delas foram selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha. Em setembro do mesmo ano, atrizes interpretaram, a seu modo, as histórias contadas pelas personagens escolhidas.

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“Jogo de cena” traz duelo entre realidade e ficção

26/09/2011

O que faz de um diretor um grande artista é a capacidade de se reinventar sem, no entanto, abandonar seus traços autorais. O veterano Eduardo Coutinho (de “Cabra marcado para morrer”, “Santo forte” e “Edifício Master”) certamente já não precisava mais provar seu valor, mas eis que ele decide lançar um filme brilhante como “Jogo de cena” e mostra que não é apenas um grande diretor, mas é também genial.

O filme, que está em cartaz na Mostra de São Paulo nesta sexta-feira (26), mistura documentário e ficção, trazendo à tona um duelo entre a realidade e a atuação. Em frente à câmera, mulheres reais e atrizes, incluindo Fernanda Torres, Andréa Beltrão e Marília Pêra, narram histórias extremamente pessoais e emotivas. O jogo está em descobrir quais são as mulheres reais e quais são as atrizes.

O ponto de partida do longa é um anúncio de jornal, que levou 83 mulheres a contarem suas histórias de vida num estúdio. Em seguida, 23 delas foram selecionadas e filmadas pelo cineasta. As palavras reais viraram texto para um grupo de atrizes, que interpretam, a seu modo, os dramas de cada uma delas.

O princípio é inteligente, mas Coutinho não parou por aí. Além de demonstrar uma sensibilidade extraordinária para selecionar as personagens e suas respectivas histórias, o diretor tem o dom de deixá-las mais à vontade que no divã do analista.

O resultado é uma hora e meia de mergulho emocional, nas experiências dessas mulheres, e cerebral, no jogo proposto pelo cineasta. No duelo entre realidade e atuação, a primeira sai ganhando, é claro. Afinal, Coutinho colocou um pé na ficção, mas sua alma continua sendo de documentarista.

Texto escrito por Carla Meneghini no G1


“Jogo de Cena”: existe fronteira entre realidade e ficção?

23/09/2011

Jogo de Cena, décimo longa metragem de Eduardo Coutinho, foi um dos melhores filmes da recente Mostra Internacional de São Paulo. Seu argumento parece tão simplório que a simples leitura do release desinteressaria o cinéfilo que não conhecesse o diretor: convocadas por intermédio de um anúncio de jornal, diversas mulheres dirigiram-se a um teatro para contar uma história marcante de sua vida. Todas se relacionam com a afetividade familiar, a maioria sobre pais (mães) e filhos. As histórias são contadas duas vezes, uma pela protagonista e outra por uma atriz, sempre sentadas diante das cadeiras de um teatro vazio. O cenário não poderia ser mais significativo.

A idéia lembra o belíssimo livro Pensei que Meu Pai Fosse Deus, do americano Paul Auster, mas o resultado na tela surpreende até os fãs mais empedernidos (que não são poucos) do diretor. O que parecia uma encenação repetitiva torna-se um genial experimento sobre a fronteira entre realidade e ficção. As possibilidades de interpretação abertas por Coutinho são muitas e o filme está mais interessado em levantar questões do que em responder.

Ao misturar atrizes famosas com mulheres comuns, entende-se melhor o processo de criação da ficção a partir de fatos reais (há fatos irreais?), bem como o fato que a emoção pode vir tanto da interpretação quanto do relato vivido. Mesmo este não deixa de ser uma ficção, não apenas porque diante da câmera tendemos todos à interpretação, mas porque muitas histórias podem ter sido aumentadas para garantir o interesse do diretor-ouvinte. Algumas podem ser invenção.

Se ficasse apenas no simples dueto atriz-contadora, Jogo de Cena já teria seu valor. Mas como um velho alquimista diante da possibilidade de transformar metal em ouro, Coutinho experimenta mais, e em algumas histórias utiliza atrizes desconhecidas interpretando a mesma história contada antes (ou depois?) por quem a vivenciou. À saída da sessão para os jornalistas, o amigo e crítico famoso Rubens Ewald Filho perguntou-me, sobre uma dessas histórias: “Você sabe qual daquelas duas era atriz?” Eu não estava seguro para responder, mas disse (e acredito) que a grande sacada do filme estava justamente em não termos certeza. É nessa dúvida que paira a fronteira entre ficção e realidade. Talvez nem haja mesmo fronteira.

Os experimentos prosseguem, num turbilhão criativo que parece não ter fim. Uma única narradora não tem sua história repetida. Trata-se da negra magra, que transou com um motorista de ônibus na guarita. Mas na última frase de seu longo e divertido (mas também triste) relato, ela afirma: “Foi isso que ela disse”. Assim, num mesmo personagem, Coutinho criou o efeito de dúvida para o qual até então eram necessárias duas mulheres.

Mesmo com o processo de filmagem escancarado, com as personagens subindo escadas, passando por câmeras, microfones e cumprimentando a equipe de Coutinho, há espaço para a sensação de real, para a emoção pura da identificação (ou repúdio) com as histórias. Há também uma interessante presença extra-cena do diretor, quando a descendente de turcos rompida com a filha diz a Coutinho “Você está rindo é? Mas é triste”. Sem querer, nos lembra que o diretor também está sujeito às emoções provocadas pelo relato. Naquele momento, nós também estávamos rindo. De certa forma lembra o diretor puxado para diante das câmeras pelo entrevistado no curta Casa de Cachorro, analisado por Jean-Claude Bernardet na nova edição de seu clássico livro Cineastas e Imagens do Povo.

A mistura entre personagem e ator chega ao ponto de Coutinho se transformar em ator. Diante das pessoas que viveram os fatos, ele faz as perguntas como qualquer documentarista. E elas nem são especialmente brilhantes, algumas até banais. Mas diante das atrizes, ele repete as mesmas perguntas, com a mesma entonação curiosa da primeira vez, mostrando ter algum talento dramatúrgico. Mesmo fora de cena, ele também está no jogo.

Enquanto outras atrizes choraram ao interpretar a história contada, Marília Pêra preferiu conter suas lágrimas. E, atenta ao processo de desconstrução real-ficção em curso, mostrou uma espécie de batom, chamado pelos atores de cristal japonês, utilizado para provocar lágrimas. Um truque simples: antes da cena, o ator passa um pouco do produto na ponta dos dedos, como se fosse mesmo um batom. Na hora de chorar, esfrega os olhos fingindo limpar uma lágrima e elas passam a brotar naturalmente. Para quem achava que o ator precisava vivenciar a emoção ou entrar em algum transe para chorar em cena, foi mais uma ruptura entre realidade e ficção. Não é à toa que qualquer atorzinho de Malhação consegue chorar.

Não satisfeito, Coutinho nos reserva lágrimas reais no final. A turca rompida com a filha citada acima volta ao jogo de cena, reclamando insatisfação com o depoimento inicial. É a única vez que isso acontece no filme. Consumida pela saudade da filha que a ignora desde que a mãe a agrediu, e que mora nos EUA, ela canta “Se Essa Rua Fosse Minha”, clássica canção de ninar. À maneira do personagem que canta Sinatra em Edifício Master, é difícil conter as lágrimas. Cada estrofe da velha canção ganha novos contornos, como se escritas especialmente para retratar os dois lados da difícil relação de amor entre mãe e filha, onde não há espaço para a compreensão mútua: “Se eu roubei teu coração, foi porque tu também roubaste o meu”. A filha também deve sofrer.

Desde Nanook do Norte e alguns filmes de Jean Rouch, ninguém mexia tanto com a fronteira entre realidade e ficção. Ao final de tanto experimento, Coutinho conseguiu um desses raros filmes que não terminam nos letreiros, mas saem conosco para os bares, restaurantes, sofá da sala, hall do cinema ou qualquer lugar onde dois ou mais cinéfilos possam conversar por muito tempo. Jogo de Cena é ouro puro.

Texto escrito por Marcelo Lyra no Cinequannon


Ouvir o Cinema

21/09/2011

Por Yves Moura – escrito durante o Festival de Gramado de 2007, para o Almanaque Virtual

Um dos maiores gênios do cinema nacional, também chamado de “O Papa do documentário”, Eduardo Coutinho apresenta seu novo trabalho neste 35° Festival de Cinema de Gramado. Como o diretor está sendo homenageado nesta edição do festival, seu novo filme, Jogo de Cena (2007), está fora da competição.

Os documentários de Coutinho sempre chamam a atenção por seu embasamento sociológico, em que seus entrevistados se abrem completamente diante do entrevistador e pela imensa quantidade de entrevistas realizadas. Jogo de Cena não é diferente, mas parte de uma premissa inusitada: com um anúncio de jornal, o diretor convida mulheres a darem depoimentos contando suas histórias de vida. Ao todo, 83 mulheres responderam ao anúncio. Depois, vinte e três foram selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha. Três meses depois, algumas atrizes receberam o texto e o DVD das personagens escolhidas para interpretar, a seu modo, as histórias contadas. E Coutinho coloca os dois depoimentos, tanto o real como o interpretado.

O documentarista Coutinho acaba criando um longa que trata de inúmeros assuntos que vão desde as atrizes comentando o método de memória emotiva de Stanislavski (o mais famoso teórico sobre direção de atores) até a exclusão social, preconceito, e gravidez na adolescência e, principalmente, discussões sobre relações familiares. Muitos depoimentos se confundem, até mesmo as atrizes famosas contam suas histórias e as menos famosas se perdem por entre as anônimas, de forma que nunca temos certeza de quem eram as atrizes e quem eram as entrevistadas. Estas acabam mexendo com as atrizes de maneira que elas nunca conseguem ser indiferentes ao texto.

Entre as mais conhecidas temos as veteranas Marília Pêra, Andréa Beltrão e Fernanda Torres, que, aliás, tem um dos melhores momentos do longa, insatisfeita com sua interpretação e inconformada em não conseguir alcançar o tom certo da “personagem”. Beltrão também tem momentos ótimos durante seu depoimento/interpretação, quando começa a chorar no meio da entrevista e, ao final desta, revela que não tinha o choro programado.

A busca em seus entrevistados por intimidades, rendem lições, derrotas, amores e vitórias. Ninguém penetra melhor na alma de um entrevistado de forma que a imagem sirva apenas como um elo entre o espectador e os depoentes. O diretor está interessado em seus discursos, que nos atingem com tamanha emoção, incomum ao gênero documentário. Eduardo Coutinho nos proporciona um prazer único: ouvir o cinema.


Jogo de Cena – Trailer

19/09/2011


Eduardo Coutinho desafia o espectador a definir o que é documento e o que é ficção

12/09/2011

Realizar documentários para colocar o próprio gênero em discussão tem sido uma constante no cinema brasileiro. Filmes como 33, À Margem da Imagem e Santiago resgatam uma tradição metalinguística que vem desde Cabra Marcado para Morrer (1984), clássico de Eduardo Coutinho: até que ponto um documentário pode ser considerado documento fiel da realidade?

Essa questão – que em maior ou menor grau atravessa toda a obra de Coutinho – é o centro de Jogo de Cena (2007). E para trazer o público para dentro da sua pensata o cineasta parte de uma pegadinha.

Em junho de 2006, Coutinho colocou um anúncio no jornal: procurava mulheres dispostas a contar as suas experiências na frente de uma câmera. De 83, 23 foram selecionadas, os seus depoimentos, tomados no teatro Glauce Rocha, no Rio – todas as mulheres sentadas em uma cadeira sobre o palco, de costas para a platéia vazia. Três meses depois, em setembro, Coutinho pediu a atrizes que assistissem às gravações de junho e encenassem diante da câmera aqueles relatos como se fossem elas, as atrizes, as verdadeiras mulheres daquelas histórias de vida.

Tudo isso só ficamos sabendo depois. A pegadinha: Coutinho não nos diz quem é atriz e quem é entrevistada. Estão todas sentadas naquela cadeira de costas para o “público”, e a cada duas histórias absolutamente idênticas aprendemos que uma delas é encenação. Na hora em que as atrizes reaparecem e começam, então, a contar as suas próprias histórias, o jogo embola de vez.

Evidentemente, a própria decisão de filmar dentro de um teatro já pressupõe um ponto de vista: diante de uma câmera ligada, sejam atores ou não, as pessoas assumem um papel. Se no nosso próprio cotidiano já criamos para nós uma persona (especialmente numa época em que o “parecer” já é mais importante do que o “ter” e o “ser”), o que dizer então quando estamos à frente do entrevistador…

Não fosse a presença de três atrizes conhecidas dentre aquelas que se apresentam diante de nós, por exemplo, ficaria dificílimo saber ao menos uma vez quem está “mentindo” ali. Mas a grande questão é: não estamos todos “mentindo” o tempo inteiro?

Sempre na sua busca quixotesca pela verdade, busca essa a de todo documentarista, Coutinho sabe que é impossível alcançá-la. O que Jogo de Cena nos diz, ao expor os mecanismos do documentário, é que é possível se aproximar da verdade uma vez que temos consciência da impossibilidade de chegar a ela.

Crítica escrita por Marcelo Hessel no Omelete


Ladrões de Bicicletas

01/09/2011

Ladrões de Bicicletas é um daqueles filmes que poderíamos colocar na gaveta dos filmes tristes. E que isso não diminua seu interesse por ele, e nem limite a variedade de leituras que podemos fazer do mesmo. Afinal, o filme não é só triste. E não nos cabe rotular…

Com muita sutileza, cenas extremamente delicadas, acrescente a isso uma trilha sonora melancólica e pronto!  A tristeza vai contagiando a todos, mas não se preocupe, isso não é nem de longe ruim. Não tem como não se comover. É como a tristeza do dia-a-dia, das notícias dos jornais, da realidade, por vezes, da nossa própria vida.

O filme faz parte do movimento neorrealista do cinema italiano, e é dirigido pelo premiado Vittorio De Sica. É um documento. E pelo contexto no qual estava inserido, na Itália pós-guerra, o longa acaba sendo o retrato de uma sociedade destruída e carente de todos os bens essenciais para viver.

Apesar de tudo isso, o filme começa bem e esperançoso.

O pai, Antonio Ricci, que está desempregado há uns três anos, consegue logo no início da trama um emprego: colar cartazes de cinema. Entretanto, a condição era que o contratado possuísse uma bicicleta para assim, facilitar as tarefas por toda a cidade. O veículo existia de fato, mas estava penhorado, assim como infinitos bens dos italianos, em busca de um pouco de dinheiro no final da década de 40. A necessidade é o que move o filme. Penhorando outros bens, a família de Ricci consegue recuperar a “tal” bicicleta. O futuro era promissor.

No primeiro dia de trabalho de Antonio Ricci, a bicicleta é roubada. E a partir daí a trama ganha outro ritmo. Em busca da bicicleta, a esperança da família, Ricci, acompanhado por seu carismático filho Bruno, segue por toda a cidade em busca da esperança perdida, ou melhor, da bicicleta.

São do pequeno Bruno algumas das cenas mais tocantes do filme, na maioria das vezes sem falas. Com uma expressão facial, uma corridinha, ou com o casaco cobrindo a cabeça na chuva, Bruno nunca reclamou, nem de fome, nem de cansaço: ele é o fiel escudeiro de seu pai. E no final, com os olhos cheios de lágrimas enquanto limpava o chapéu do pai, Bruno ganha o filme.

Se Ricci encontra ou não a bicicleta, se a situação melhora para a família, você vai descobrir. O fato é que a relação com a vida real é inegável. A bicicleta é uma metáfora, é aquilo que nos move diariamente. É a esperança de que sempre, sempre algo bom vai nos acontecer. E o grande mistério é por que às vezes acontece, e às vezes não…?

Ladri di Biciclette é um documento histórico. É um filme cruel por mostrar uma realidade tão bruta, é um filme doce pelas bolas de sabão que passam despercebidas, é um filme sobre esperança numa situação extrema, mas, sobretudo é um filme que fala sobre o que o homem é capaz de fazer…

*Ivana Lemos escreveu este texto. Trata-se do programa distribuído durante exibição de “Ladrões de Bicicleta”, no dia 30 de agosto de 2011.


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