Rebobine, por favor – Um filme produzido para deliciar cinéfilos

06/09/2013

rebobineDepois de provar toda sua competência ao dirigir o sensacional e criativo Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, escrito pelo genial Charlie Kaufman, o cineasta Michel Gondry se dedicou a um projeto cômico, e também original, escrito por ele próprio. Rebobine, Por Favor não é um estouro de criatividade comparável aos filmes de Kaufman, mas prova que Gondry é mais uma mente criativa em meio a tantas produções cinematográficas repetitivas, quadradas, e presas a fórmulas populares.

Na história, Mike (Mos Def) recebe a incumbência de tomar conta da locadora de Elroy Fletcher (Danny Glover), enquanto este viaja para realizar uma pesquisa com a finalidade de modernizar o seu negócio e assim torná-lo mais lucrativo. Porém, Jerry (Jack Black), amigo de Mike, acidentalmente desmagnetiza todas as fitas VHS da loja e, para não prejudicarem o negócio de Fletcher, os rapazes resolvem refilmar aos poucos os títulos disponibilizados para locação.

O filme é uma grande homenagem ao cinema, uma celebração à democratização na produção cinematográfica, conseqüência das novas tecnologias digitais e suas formas de propagação – como o Youtube – e uma discussão sobre originalidade e paixão no processo de criação dos filmes, em época de enlatados comerciais produzidos com a única finalidade de agradar ao público e garantir receitas exorbitantes.

Nesse sentido, o filme não se diferencia muito da mensagem transmitida pelo brasileiro Saneamento Básico, de Jorge Furtado, que, a sua maneira, versa sobre o mesmo tema com mais simplicidade e consegue ser mais hilariante. O principal ponto comprometedor do filme de Gondry é não ser tão engraçado como pretendia, é apenas divertido. Mas, mesmo assim, encanta pela forma passional com a qual os personagens recriam clássicos como King Kong, Os Caça-Fantasmas, Conduzindo Miss Daisy, entre diversos outros. Encanta também a declaração de amor do próprio Gondry a todo o processo de produção, desde sua concepção, desenvolvimento de roteiro, até o tratamento final.

É um filme sobre o fazer cinema atualmente, em um período no qual os estúdios aderem cada vez mais à moda da “suecagem” – palavra com a qual os personagens definem a reprodução de filmes – com refilmagens de obras do passado. Se não é um longa tão engraçado quanto parecia ser, funciona perfeitamente como homenagem à sétima arte. Rebobine, Por Favor, apesar de demorar para engrenar, propicia uma agradável experiência quando consegue entrar nos eixos. É, sem dúvida, muito mais interessante assistir a algo feito com paixão, do que a obras caça-níqueis. E essa sensação agradável permeia o filme. Mesmo nos momentos mais descartáveis, é possível ignorar os exageros nada engraçados de Gondry, com a certeza de que sua mensagem é mais forte que seus deslizes.

É um filme para cinéfilos, amantes da arte. Esse é o público principal do longa, e são eles que se deliciarão e sentirão uma nostalgia incrível de uma época em que a produção de cinema não estava comprometida até o pescoço com os interesses do departamento comercial. Fica aquém das expectativas, mas deixa uma sensação gostosa e provoca um sorriso largo no rosto do espectador.

Texto escrito por Emilio Franco Jr., no Cineplayers

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Rebobine, Por Favor: Michel Gondry presta sua homenagem à popularização da Sétima Arte através do VHS

04/09/2013

2008_be_kind_rewind_008Há dois pré-requisitos para aproveitar ao máximo Rebobine, Por Favor (Be Kind, Rewind, 2008): Gostar de cinema e ter vivido os anos 1980.

Só quem experimentou na tela grande Os Caça-Fantasmas, ficou na fila de espera para alugar a fita deRobocop e viu sair o primeiro VHS de 2001: Uma Odisséia no Espaço entenderá totalmente o carinho que o diretor e roteirista Michel Gondry (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança) tem por essa época.

Não tome isso, porém, como um apreço do cineasta a la“trash eighties”, ode exagerada à breguice de uma era. Em tempos de blu-ray e mídias digitais, o cineasta francês presta aqui sua homenagem à popularização da Sétima Arte através do “Video Home System” (VHS), às locadoras de bairro em extinção e a uma época em que a criatividade corria livre por Hollywood, quando estavam apenas começando as seqüências e refilmagens e a quase inexistência da computação gráfica forçava a indústria a buscar inventivas soluções para as cenas que desejava criar.

Na trama, um dono de locadora (Danny Glover) vê-se em apuros. A concorrência começa a investir em lojas modernas e alta tecnologia e seus negócios vão de mal a pior. Sem dinheiro, ele sequer tem como fazer as reformas que a prefeitura exige em seu prédio – e pode perdê-lo. O pacato senhor parte então para a cidade, onde estudará o novo negócio dos digital video discs, deixando o ajudanteMike (Mos Def) tomando conta da loja. Mas Mike tem um amigo desmiolado, Jerry (Jack Black), que acaba desmagnetizando por acidente todas as fitas da locadora. Desesperados, eles começam a reencenar, com os recursos que têm à mão, cada filme da loja. E a demanda começa a crescer…

O que são os personagens de Jack Black Mos Defsenão os pioneiros do cinema? Para refilmar os clássicos, usam inadvertidamente técnicas criadas ao longo de um século de arte por mestres como Fritz Lang, de quem primeiro partiu o truque da perspectiva que os amigos usam em sua versão “suecada” de King Kong. Sim, há até um termo para as refilmagens toscas: “Suecar“, ou recriar sem recursos, que virou mania de “mundo real” noYouTube.

Outra grande idéia atrelada à suecagem foi a proibição de Gondry que qualquer pessoa assistisse novamente aos filmes citados. As recriações deveriam partir das lembranças de cada um daquelas produções, do que as pessoas guardaram com elas. Em filmes cheios de ícones e momentos antológicos, como o citado Caça-Fantasmas, fica relativamente fácil – mas é igualmente hilário acompanhar como se refaz um filme-falatório como Conduzindo Miss Daisy, do qual ninguém lembra de coisa alguma.

Mesmo antes do lançamento, Gondry explorou a “suecagem” na campanha de marketing do filme com grande sucesso, mas o resultado nas bilheterias decepcionou. Talvez porque pouca gente divida com o diretor a agradável nostalgia que ele transmitiu tão bem. Não é um filme de gargalhadas histéricas, mas um de sorriso constante, um “feel good movie” fantasioso e totalmente cinéfilo. E dá uma vontade enorme de assisti-lo em VHS, ouvir o barulhão da fita, ter que colar o filme com esmalte depois que o cabeçote engoliu um pedaço, e, claro, não rebobinar ao final!

Senti falta apenas – e acredito que o cineasta também – dos grandes clássicos da Amblin Entertainment, verdadeiro sinônimo do cinemão oitentista. Sem ET – O ExtraterrestreGremlins, Goonies De Volta Para o Futuro, filmes que a produção não conseguiu licença para suecar, os anos 1980 parecem incompletos…

Texto de Érico Borgo publicado no site Omelete.


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