Allen, além da imaginação

02/05/2011

Uma turma de alunos do primeiro ano, período noturno, do curso de Técnico em Produção de Áudio e Vídeo, do Colégio Estadual do Paraná, participou da mais recente edição do “Terça tem cinema”. Na última terça-feira, 26 de abril, os estudantes assistiram a “Zelig”, de Woody Allen, e participaram do debate que costuma seguir às apresentações. Confira a seguir as impressões principais dos aluno, tanto sobre o projeto como sobre a obra em discussão:

“Genial. Virei fã de Woody Allen depois de assistir a esse filme. Realmente não sabia o que era real e o que era ficção. Cheguei a me perguntar se poderia existir uma doença que mude a aparência das pessoas daquele jeito. Sarcástico, engraçado, alucinante”, Caio Monczak.

“É um projeto muito bom, interessante, porque traz filmes de difícil acesso, e com exibição gratuita. O filme Zelig faz com que você acredite que a história é real até praticamente a metade do filme. Traz críticas bem elaboradas e feitas com bom humor”, Camila Marçal de Melo.

“Woody Allen prova que pra fazer comédia não é necessário apelar pro ridículo, ou pro exagero, pelo contrário: Zelig é uma inteligente crítica à sociedade americana, às classificações da Psicologia e, até mesmo, uma sátira ao diagnóstico de doenças psíquicas. No mínimo, genial”, Daniel Horn.

“Um filme muito interessante. Nos faz pensar sobre as mudanças constantes de Zelig para se adaptar às pessoas em uma sociedade sempre inconstante”, D. Tomaz Birnsfeldt.

“Zelig é simplesmente genial. Constantemente o filme nos convida a várias reflexões dentro de uma situação caótica, na qual a realidade e a ficção se fundem… e se confundem!”, Felipe Debiasio (Semente Sonora).

“O projeto é sensacional. Merece uma maior divulgação, porque apresenta filmes difíceis de serem encontrados, com boa temática, além do debate. E o Zelig, de Woody Allen, mexe com as nossas sensações intelectuais e com a nossa ignorância, de uma forma sutil. Os depoimentos apresentados davam um ar de realidade ao mesmo tempo em que o protagonista, em suas crises de identidade, tomava forma das pessoas em seu ambiente”, João Henrique Campos.

“É um filme diferente da maioria. Zelig é um documentário de ficção, no decorrer do filme a junção de cenas reais com ficcionais torna as cenas surpreendentes. A cada instante, Woody Allen, por meio de sua personalidade analítica, cômica, consegue impressionar os espectadores com os problemas que Zelig enfrenta, até ele encontrar sua verdadeira personalidade”, Paty Evans.

“Uma crítica à sociedade, com o objetivo de mostrar que as pessoas querem ser como os outros querem, e também em relação a um certo preconceito com pessoas ‘gordas’, negros, orientais, asiáticos… Mostrar como as pessoas ficam populares só quando são o que os outros querem”, Robson Souza Gomes.

“Um filme documental no estilo real, porém ficcional. Um documentário cujo cenário é o poder real do imaginário. O mito, o bendito, o maldito… Zelig… Todas as personalidades em uma só personagem. Todas as personagens em uma única busca… Quem compreende Zelig? Quem conhece Zelig? O que é Zelig? O que ‘são’ Zelig? Woody Allen testa nossas indagações mais profundas: de onde vim, para onde vou, quem sou… Talvez Zelig?”, Rodrigo Braz.

“O filme brinca com a nossa ignorância, ou seja, com o conhecimento ou a falta de conhecimento histórico que nós temos, porque a ficção e a realidade caminham juntas. A ficção se maquia de real, alimentada por esse fator ‘ignorância’ de parte do espectador”, Tiago P. S. Albuquerque.

“Me chamou a atenção como ele reconstrói, brincando com fatos reais, a história de seu personagem. No debate, alguém comentou: ‘somos doutrinados a gostar de heróis ativos’. Zelig é passivo. Será, aliás, o alterego de Woody Allen, pedindo nossa atenção? No filme ele consegue ser um ‘herói’”, Simone Aparecida de Matos.

“O projeto ‘Terça tem cinema’ proporciona diversão e cultura à comunidade curitibana”, Soraia Roque de Paula Rodrigues.

* Texto enviado pelo professor Wagner de Alcântara Aragão

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Zelig (1983)

26/04/2011

Em 83, ano em que filmou Zelig, Woody Allen estava mais do que consolidado como diretor. Já havia participado de um bocado de filmes, bem como dirigido alguns de seus grandes clássicos, como Manhattan (1979) e Annie Hall (1977). Mas também já tinha brincado bastante com a linguagem do cinema, como em O que há Tigresa (1966), seu filme de estreia em que usa cenas de um filme japonês e com uma nova dublagem altera seu significado. O que? Você achava que o Hermes e Renato tinham inventado isso?

Zelig entra nessa onda por ser um documentário falso. Woody não era completamente estranho à linguagem, já que tinha brincado um pouco com isso em Um Assaltante bem Trapalhão (1969), em que alguns personagens interrompiam as cenas para falar para um entrevistador sobre outros personagens do filme.

Mas Zelig leva isso a um outro patamar. Todas as cenas são em formato documental, o que nos exige um novo tipo de pacto filme-espectador por conta de sua história fantástica.

Zelig, o personagem interpretado por Woody Allen, é uma espécie de camaleão humano. Ele não tem personalidade própria sedimentada, o que faz com que ele, por exemplo, ao lado de um escocês fique ruivo, ou ao lado de um negro, tenha a pele escurecida e assim por diante.

Além das implicações hilárias dessa história, interessa à Woody, justamente, esse espaço do pacto entre nós que assistimos e ele que produziu. Afinal, naquele formato, estamos condicionados a receber verdades absolutas, documentários historiográficos, um cinema muito mais próximo do jornalismo que da arte narrativa. Mas o que vemos em Zelig é tão fantasioso que simplesmente não temos como nos deixar levar.

A provocação é óbvia, então: só acreditamos nos outros documentários por hábito, não pela argumentação.


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