Cantando na Chuva faz 60 anos

27/06/2012

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A cena quase todos conhecem. Mesmo quem nunca ouviu falar do filme ou de Gene Kelly já viu, em algum lugar, de alguma forma, a representação do homem agarrado a um poste de luz, satisfeito por dançar e cantar na chuva – meu primeiro contato com a imagem, por exemplo, foi em uma revistinha da Turma do Mônica, com Cascão assumindo a pose em um delírio. A cena icônica – tão marcante como o Carlitos de Charles Chaplin ou o vestido esvoaçante deMarilyn Monroe – resume o espírito de Cantando na Chuva, uma euforia sincera, lúdica, que há 60 anos se mantém com “o melhor musical hollywoodiano de todos os tempos”, nas palavras da crítica Pauline Kael.

Lançado em 27 de março de 1952, o filme surgiu em consequência do sucesso de Sinfonia em Paris (An American in Paris, 1951) – vencedor do Oscar em seis categorias, incluindo melhor filme – e trazia novamente o talento de Kelly como coreógrafo e protagonista. O produtor da MGM Arthur Freed viu que um novo e prestigiado musical seria o veículo perfeito para o seu catálogo de canções escritas com Nacio Herb Brown (já usadas em diferentes musicais do estúdio entre 1929 e 1939). Coube aos roteiristas Betty Comden e Adolph Green encontrarem um cenário – o período de transição entre o cinema silencioso e o falado no final da década de 

Freed/Brown. A direção ficou com Stanley Donen, com codireção de Kelly, repetindo a parceria de Um Dia em Nova York (On the Town, 1949).

A trama, bastante similar ao filme francês Étoile sans lumière, estrelado por Edith Piaf em 1946, tem como personagem principal Don Lockwood (Kelly), um popular astro do cinema mudo que precisa se adaptar a chegada do som (qualquer semelhança com O Artista  também não é apenas coincidência). Suas raízes como cantor e dançarino de teatro de revista facilitam sua transição, mas o mesmo não acontece com seu par romântico nas telas, a estridente Lina Lamont (Jean Hagen). Com o estúdio determinado a transformar sua última produção em um filme falado, The Dueling Cavalier, é o melhor amigo Don, Cosmo (Donald O’Connor), quem sugere que a aspirante a atriz Kathy Selden (Debbie Reynolds, a mãe da Princesa Léia, Carrie Fisher) duble a desafinada Lina.

Dentro dos conflitos mudo versus falado surge o humor, inspirado por histórias reais do período de transição. A apresentação do sistema Vitaphone de cinema falado, por exemplo, que não impressiona seus espectadores (como aconteceu com a demonstração do inventor Lee DeForest para o Phonofilm, em 1921); o êxtase em torno do primeiro longa-metragem falado, O Cantor de Jazz (The Jazz Singer, 1927); a dificuldade dos atores falarem em direção aos microfones escondidos em objetos de cena; a 

inadequação do roteiro mudo, que transforma uma cena em que Don se declara a Lina em comédia (em referência a uma cena do ator John Gilbert em seu primeiro filme falado, His Glorious Night, de 1929); a necessidade da contratação de um técnico vocal para os atores; e, finalmente, a revelação da verdadeira estrela do filme, Kathy, quemostra a um cinema lotado a voz estridente de Lina.

Ironicamente, o maior musical da história do cinema tem apenas uma canção original, “Moses Suposes“, com letra de Comden e Green. Nem mesmo sua canção-título era novidade, já tendo sido usada em diversas produções, sendo a primeira vez em The Hollywood Revue of 1929, um dos primeiros filmes falados da MGM (e que mais tarde apareceria como parte importante de outras produções, como Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick). Outra canção, “Make ‘em Laugh“, mesmo que tecnicamente original, não passa de um plágio de “Be a Clown” de Cole Porter, usada em outro musical produzido por Freed e estrelado por Kelly, O Pirata (1948).

Violações da propriedade intelectual à parte, o número musical interpretado por O’Connor é um dos momentos que transformaram Cantando na Chuva em um clássico. A cena, uma mistura de comédia clown com sapateado acrobático, parece ter sido improvisada, sem qualquer ensaio anterior, tamanha a espontaneidade dos movimentos do ator – que depois das filmagens precisou ser hospitalizado, já que seu pulmão consumido por quatro maços de cigarro ao dia não resistiu ao esforço. Para gravar a cena em que canta e dança na chuva, Kelly também precisou superar adversidades, como uma febre de 39°e um terno encolhido pela mistura de leite e água usada para realçar a chuva. Cota de dor que também coube a Reynolds – os pés da atriz sangraram de tanto sapatear na gravação da sequência de “Good Morning“.

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Nada disso, é claro, pode ser visto em cena. O que transforma Cantando na Chuva em um dos melhores musicais da história do cinema é o sentimento, por vezes bobo, de uma alegria autêntica, quase infantil. O filme, feito com certa liberdade graças ao prestígio recebido por Kelly em Sinfonia em Paris, carrega um tom de improviso que nos aproxima dessa realidade paralela onde pessoas cantam e dançam para expressar sentimentos e problemas. Fica impossível, então, não se lembrar da famosa cena quando se estiver por aí, caminhando feliz, e começar a chover.

Texto escrito por Natália Bridi em Omelete

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“E essa sensação de ousadia que não cessa!”

26/06/2012

Quase tudo já foi dito sobre “8 ½”, o filme do diretor Federico Fellini. Já disseram, por exemplo, que Fellini deu este título como uma referência à sua carreira na qual   ele até então já havia dirigido seis longa-metragens, dois episódios de filmes e havia co-dirigido um longa-metragem. Já ouvimos dizer também que o filme é autobiográfico com cenas retiradas da vida de Fellini. Segundo o próprio Fellini, algumas cenas foram gestadas em seus sonhos! Sonhos, recordações, desejos e imaginações no contexto da crise criativa de um artista que tem que continuar produzindo, cenas que rememoram o passado da personagem que conduz a trama, Guido Anselmi (Marcello Mastroianni), que funciona como o alter ego de Fellini.

“8 ½” é  um filme sobre os meandros que cercam o processo criativo, a angústia presente nos dias e noites que o artista passa a viver quando precisa cumprir prazos. Guido Anselmi resolve se internar em uma estação-de-águas para buscar inspiração. Aqui temos talvez  a melhor das experiências com a metalinguagem  no cinema. Conta-se que o próprio Fellini estava vivendo uma crise criativa. Usar o seu protagonista, um diretor de cinema, pra falar da sua crise pessoal com o cinema é sem dúvida um golpe ninja que só um grande diretor saberia utilizar.

Até aqui falávamos sobre as impressões que estão apenas a um clique de distância, se não a todos a quase todos nós.

Antes de formalizar o convite para que sentemos confortáveis e dispostos a mergulhar neste universo mágico onde habitam os clássicos, eu vos convido: no corredor do meio perto da varanda há um conjunto de cenas, magistralmente concebidas, que valem por elas mesmas. “8 ½” é sem dúvida uma daquelas obras que cabem em qualquer contexto atual.

E agora estamos afoitos por engavetar Fellini no lugar dos clássicos, estamos? Bom, talvez fosse melhor avisar que ao se ver um filme de Fellini fica uma sensação de que as coisas estagnaram, porque em tempos de super produções e todos os efeitos especiais, azuis multicoloridos e ‘multibrilhantes’ , quando vemos uma história bem contada sem necessariamente ser uma história muito boa, há muito mais ousadia e brilha infinitamente mais. Ousadia encontrada no preto e branco! E isso não é qualitativo, o melhor e o pior raramente estão ligados ao tempo. Aliás, ledo engano de quem classifica a ‘boa arte’ pela linha do tempo, o que é bom geralmente é universal e atemporal, mas isso também, ainda bem, não é uma regra.

“Será que há algo tão claro e justo no mundo que mereça viver? Estamos sufocados por palavras, por imagens e por sons que não têm nenhuma razão de ser, que saem do nada e se dirigem para o nada. Que monstruosa presunção achar que seria útil para alguém o esquálido catálogo dos seus erros… E de que lhe adiantaria unir os farrapos de sua vida, suas vagas lembranças e os rostos daqueles que nunca souberam amar?”

Do filme “8 ½“ do cineasta italiano Federico Fellini. O filme é de 1963, mas as palavras nunca foram tão atuais. 


Texto escrito por Sol Sloboda para exibição do filme 8 1/2 em 12/06/2012.


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