Zelig (1983)

26/04/2011

Em 83, ano em que filmou Zelig, Woody Allen estava mais do que consolidado como diretor. Já havia participado de um bocado de filmes, bem como dirigido alguns de seus grandes clássicos, como Manhattan (1979) e Annie Hall (1977). Mas também já tinha brincado bastante com a linguagem do cinema, como em O que há Tigresa (1966), seu filme de estreia em que usa cenas de um filme japonês e com uma nova dublagem altera seu significado. O que? Você achava que o Hermes e Renato tinham inventado isso?

Zelig entra nessa onda por ser um documentário falso. Woody não era completamente estranho à linguagem, já que tinha brincado um pouco com isso em Um Assaltante bem Trapalhão (1969), em que alguns personagens interrompiam as cenas para falar para um entrevistador sobre outros personagens do filme.

Mas Zelig leva isso a um outro patamar. Todas as cenas são em formato documental, o que nos exige um novo tipo de pacto filme-espectador por conta de sua história fantástica.

Zelig, o personagem interpretado por Woody Allen, é uma espécie de camaleão humano. Ele não tem personalidade própria sedimentada, o que faz com que ele, por exemplo, ao lado de um escocês fique ruivo, ou ao lado de um negro, tenha a pele escurecida e assim por diante.

Além das implicações hilárias dessa história, interessa à Woody, justamente, esse espaço do pacto entre nós que assistimos e ele que produziu. Afinal, naquele formato, estamos condicionados a receber verdades absolutas, documentários historiográficos, um cinema muito mais próximo do jornalismo que da arte narrativa. Mas o que vemos em Zelig é tão fantasioso que simplesmente não temos como nos deixar levar.

A provocação é óbvia, então: só acreditamos nos outros documentários por hábito, não pela argumentação.

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