Festim Diabólico – Meu filme preferido de Hitcock é um suspense magistral, tecnicamente e psicologicamente

01/10/2013

ropeVou começar pelo óbvio: esse filme é genial! Mesmo com Psicose, Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai, Intriga Internacional, e muitas outras obras-primas, Festim Diabólico é meu filme favorito do imortal diretor Alfred Hitchcock. É também um dos melhores suspenses de todos os tempos: assistir o filme pela primeira vez é enfrentar uma tensão crescente que poucos diretores já conseguiram passar para as telas. Nada de fantasmas ou aparições, Festim Diabólico trata do real, apresentando os maiores defeitos e qualidades das emoções humanas, funcionando tanto como um simples entretenimento quanto um estudo aprofundado de personagens.

Gravado totalmente em estúdio, este é talvez o filme mais experimental do diretor e, portanto, o mais ousado. É seu primeiro filme colorido, mas não é experimental por causa disso: ele foi filmado em apenas 10 tomadas de oito minutos cada uma. Oito minutos de filme, para a época, era o máximo que um rolo de filme podia suportar. Mas boa parte dos cortes presentes entre essas tomadas são imperceptíveis (o que torna a técnica do filme ainda mais genial): Hitchcock utilizou truques de edição para tentar disfarçar o máximo possível a passagem entre os poucos rolos de filme utilizados. Por exemplo, aproximando o foco de um local escuro para, no próximo rolo, filmar em zoom out a partir daquele local. Pronto! Temos um corte que poucos notariam.

Para os atores o uso de tal técnica também foi complicado. Se hoje em dia o cinema é marcado por tomadas rápidas, que permitem ao diretor refilmá-las sem muita perda de tempo caso ocorra algum problema, imagine o trabalho de filmar uma cena de oito minutos. O estilo teatral do filme, portanto, é bem evidente: tudo bem coreografado, através da repetição, até que a cena saísse perfeita (e sendo Hitchcock um diretor altamente perfeccionista, a dificuldade e pressão para cima dos atores foi ainda maior). Para se ter uma idéia, durante as filmagens, apenas um segmento por dia era finalizado. E demonstrando seu perfeccionismo, o diretor chegou a refilmar cinco ou seis segmentos por causa que ele não estava completamente contente com a cor da luz do sol nessas tomadas. Obviamente, genialidade requer trabalho extra e muita paciência.

A história de Festim Diabólico é simples, mas repleta de personagens que tornam o filme complexo e dinâmico, no sentido de imprevisível. É levemente baseada em um caso real: em 1924 os jovens Leopold e Loeb (19 e 18 anos, respectivamente), raptaram e mataram um garoto de 14 anos chamado Bobby, na cidade de Chicago. O caso teve grande repercussão em jornais da época. Ambos foram julgados, mas conseguiram escapar da pena de morte, sendo apenas aprisionados. Loeb morreu na prisão, e Leopold saiu dela após 45 anos, morrendo no início dos anos 70. Era quase evidente que ambos eram homossexuais (isso nunca foi tido como certo). Em Festim Diabólico, Hitchcock pega apenas a premissa geral para criar o roteiro (e mantém a suspeita de homossexualismo, da forma mais sutil possível, tanto que muitas pessoas nem desconfiam quando assistem ao filme – lembre-se, o ano de lançamento foi 1948, e tal assunto não era discutido muito abertamente).

No filme, o crime tem motivo intelectual: na cidade de Nova York, Brandon (John Dall, que não fez muitos filmes, mas participou de Spartacus, de Kubrick) e Phillip (Farley Granger, que tem uma enorme filmografia, entre ela Pacto Sinistro, outro clássico de Hitchcock) assassinam seu amigo David, por considerarem-se superiormente intelectuais em relação a ele. O assassinato, com uma corda (Rope, o título do filme) é a primeira cena. Com toda a frieza e arrogância do mundo, eles resolvem provar para eles mesmos sua habilidade e esperteza: esconderão o cadáver em um grande baú, que servirá como mesa e estará exposto no meio da sala de estar do apartamento deles, durante uma festa que realizarão logo em seguida.

Tudo torna-se ainda mais interessante ao descobrirmos que entre os convidados estarão o pai, a noiva e a tia da vítima, além do outro pretendente de sua noiva, Kenneth. Completando a lista de pessoas presentes na festa, está a senhora Wilson (a empregada) e principalmente Rupert Cadell (o também imortal James Stewart, um dos meus atores favoritos de todos os tempos e que trabalhou muito com o diretor, como em Janela Indiscreta, por exemplo). Rupert é o professor da dupla de assassinos, cujas opiniões em classe, aceitas de forma errônea por eles, acabaram motivando-lhes a cometerem o crime.

Enfim, temos a velha história (mas geralmente interessante) da tentativa de se criar o assassinato perfeito (Pacto de Sangue é outro filme maravilhoso que me vem à cabeça sobre o mesmo tema). Mas isso seria uma explicação muito simples sobre o tema de Festim Diabólico. Hitchcock nos proporciona uma obra que vai crescendo em tensão e complexidade a cada nova tomada sem cortes (é o filme onde ambos – técnica e conteúdo – são magistrais). Tudo começa a ficar ainda melhor quando Brandon, em sua arrogância cega, começa a jogar pistas, sutilmente, sobre o crime que acabara de cometer e, à medida que o professor Rupert vai começando a desconfiar dessas pistas, Phillip, nessa altura já mentalmente desgastado, começa a sucumbir ao medo de ser descoberto.

Não vou falar mais porque perderia a graça, mas posso garantir (e repetir o que já falei antes) que este é um dos filmes mais tensos que já assisti na vida, provando que uma obra não precisa de elementos espetaculares para ser boa. Todo o tempo o diretor permanece dentro do apartamento, e apenas seus personagens são suficientes para segurar a atenção do espectador (obviamente, há uma parte do público que acha tudo isso uma chatice, afinal não é regra universal ter que gostar de Hitchcock e seu talento inegável). Interessante é o fato (e talvez ele ajude na minha opinião de ser meu filme favorito do diretor) de que aqui não há o velho clichê Hitchcockiano da loira sensual (pense em Intriga Internacional, Psicose e Janela Indiscreta, só para citar alguns exemplos): embora a noiva de David, Janet (Joan Chandler) seja muito bonita, ela não é personagem de destaque do filme em momento algum (e também não é loira, de qualquer forma).

É interessante destacar que para muitos críticos este não é um filme tão respeitável do diretor quanto Psicose ou Janela Indiscreta, por exemplo. Na época de seu lançamento, fracassou crítica e comercialmente. Mas, em minha opinião, Festim Diabólico é tão perfeito quanto um filme do gênero suspense pode ser. Hoje em dia, esse gênero está lotado de filmes que realmente não provocam no espectador nenhuma sensação de tensão, temor ou dúvida pelo que vai acontecer em seguida, características comuns desta obra. Este também é um filme que demonstra o porquê do diretor ser mundialmente conhecido como o “mestre do suspense”. Roteiro magnífico, atores em interpretações impecáveis (James Stewart fascinante como sempre, mesmo que seu personagem não seja o protagonista), técnica original (mesmo para os dias atuais, onde poucos se aventuram a fazer esse tipo de coisa) culminam em uma obra-prima – mais uma – de um dos melhores diretores de todos os tempos. Filme obrigatório para qualquer um que se ache um pouco entendido de cinema.

Texto escrito por Alexandre Koball no Cineplayers.


Rebobine, por favor – Um filme produzido para deliciar cinéfilos

06/09/2013

rebobineDepois de provar toda sua competência ao dirigir o sensacional e criativo Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, escrito pelo genial Charlie Kaufman, o cineasta Michel Gondry se dedicou a um projeto cômico, e também original, escrito por ele próprio. Rebobine, Por Favor não é um estouro de criatividade comparável aos filmes de Kaufman, mas prova que Gondry é mais uma mente criativa em meio a tantas produções cinematográficas repetitivas, quadradas, e presas a fórmulas populares.

Na história, Mike (Mos Def) recebe a incumbência de tomar conta da locadora de Elroy Fletcher (Danny Glover), enquanto este viaja para realizar uma pesquisa com a finalidade de modernizar o seu negócio e assim torná-lo mais lucrativo. Porém, Jerry (Jack Black), amigo de Mike, acidentalmente desmagnetiza todas as fitas VHS da loja e, para não prejudicarem o negócio de Fletcher, os rapazes resolvem refilmar aos poucos os títulos disponibilizados para locação.

O filme é uma grande homenagem ao cinema, uma celebração à democratização na produção cinematográfica, conseqüência das novas tecnologias digitais e suas formas de propagação – como o Youtube – e uma discussão sobre originalidade e paixão no processo de criação dos filmes, em época de enlatados comerciais produzidos com a única finalidade de agradar ao público e garantir receitas exorbitantes.

Nesse sentido, o filme não se diferencia muito da mensagem transmitida pelo brasileiro Saneamento Básico, de Jorge Furtado, que, a sua maneira, versa sobre o mesmo tema com mais simplicidade e consegue ser mais hilariante. O principal ponto comprometedor do filme de Gondry é não ser tão engraçado como pretendia, é apenas divertido. Mas, mesmo assim, encanta pela forma passional com a qual os personagens recriam clássicos como King Kong, Os Caça-Fantasmas, Conduzindo Miss Daisy, entre diversos outros. Encanta também a declaração de amor do próprio Gondry a todo o processo de produção, desde sua concepção, desenvolvimento de roteiro, até o tratamento final.

É um filme sobre o fazer cinema atualmente, em um período no qual os estúdios aderem cada vez mais à moda da “suecagem” – palavra com a qual os personagens definem a reprodução de filmes – com refilmagens de obras do passado. Se não é um longa tão engraçado quanto parecia ser, funciona perfeitamente como homenagem à sétima arte. Rebobine, Por Favor, apesar de demorar para engrenar, propicia uma agradável experiência quando consegue entrar nos eixos. É, sem dúvida, muito mais interessante assistir a algo feito com paixão, do que a obras caça-níqueis. E essa sensação agradável permeia o filme. Mesmo nos momentos mais descartáveis, é possível ignorar os exageros nada engraçados de Gondry, com a certeza de que sua mensagem é mais forte que seus deslizes.

É um filme para cinéfilos, amantes da arte. Esse é o público principal do longa, e são eles que se deliciarão e sentirão uma nostalgia incrível de uma época em que a produção de cinema não estava comprometida até o pescoço com os interesses do departamento comercial. Fica aquém das expectativas, mas deixa uma sensação gostosa e provoca um sorriso largo no rosto do espectador.

Texto escrito por Emilio Franco Jr., no Cineplayers


Rebobine, Por Favor: Michel Gondry presta sua homenagem à popularização da Sétima Arte através do VHS

04/09/2013

2008_be_kind_rewind_008Há dois pré-requisitos para aproveitar ao máximo Rebobine, Por Favor (Be Kind, Rewind, 2008): Gostar de cinema e ter vivido os anos 1980.

Só quem experimentou na tela grande Os Caça-Fantasmas, ficou na fila de espera para alugar a fita deRobocop e viu sair o primeiro VHS de 2001: Uma Odisséia no Espaço entenderá totalmente o carinho que o diretor e roteirista Michel Gondry (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança) tem por essa época.

Não tome isso, porém, como um apreço do cineasta a la“trash eighties”, ode exagerada à breguice de uma era. Em tempos de blu-ray e mídias digitais, o cineasta francês presta aqui sua homenagem à popularização da Sétima Arte através do “Video Home System” (VHS), às locadoras de bairro em extinção e a uma época em que a criatividade corria livre por Hollywood, quando estavam apenas começando as seqüências e refilmagens e a quase inexistência da computação gráfica forçava a indústria a buscar inventivas soluções para as cenas que desejava criar.

Na trama, um dono de locadora (Danny Glover) vê-se em apuros. A concorrência começa a investir em lojas modernas e alta tecnologia e seus negócios vão de mal a pior. Sem dinheiro, ele sequer tem como fazer as reformas que a prefeitura exige em seu prédio – e pode perdê-lo. O pacato senhor parte então para a cidade, onde estudará o novo negócio dos digital video discs, deixando o ajudanteMike (Mos Def) tomando conta da loja. Mas Mike tem um amigo desmiolado, Jerry (Jack Black), que acaba desmagnetizando por acidente todas as fitas da locadora. Desesperados, eles começam a reencenar, com os recursos que têm à mão, cada filme da loja. E a demanda começa a crescer…

O que são os personagens de Jack Black Mos Defsenão os pioneiros do cinema? Para refilmar os clássicos, usam inadvertidamente técnicas criadas ao longo de um século de arte por mestres como Fritz Lang, de quem primeiro partiu o truque da perspectiva que os amigos usam em sua versão “suecada” de King Kong. Sim, há até um termo para as refilmagens toscas: “Suecar“, ou recriar sem recursos, que virou mania de “mundo real” noYouTube.

Outra grande idéia atrelada à suecagem foi a proibição de Gondry que qualquer pessoa assistisse novamente aos filmes citados. As recriações deveriam partir das lembranças de cada um daquelas produções, do que as pessoas guardaram com elas. Em filmes cheios de ícones e momentos antológicos, como o citado Caça-Fantasmas, fica relativamente fácil – mas é igualmente hilário acompanhar como se refaz um filme-falatório como Conduzindo Miss Daisy, do qual ninguém lembra de coisa alguma.

Mesmo antes do lançamento, Gondry explorou a “suecagem” na campanha de marketing do filme com grande sucesso, mas o resultado nas bilheterias decepcionou. Talvez porque pouca gente divida com o diretor a agradável nostalgia que ele transmitiu tão bem. Não é um filme de gargalhadas histéricas, mas um de sorriso constante, um “feel good movie” fantasioso e totalmente cinéfilo. E dá uma vontade enorme de assisti-lo em VHS, ouvir o barulhão da fita, ter que colar o filme com esmalte depois que o cabeçote engoliu um pedaço, e, claro, não rebobinar ao final!

Senti falta apenas – e acredito que o cineasta também – dos grandes clássicos da Amblin Entertainment, verdadeiro sinônimo do cinemão oitentista. Sem ET – O ExtraterrestreGremlins, Goonies De Volta Para o Futuro, filmes que a produção não conseguiu licença para suecar, os anos 1980 parecem incompletos…

Texto de Érico Borgo publicado no site Omelete.


Abril Despedaçado – Um sólido e importante drama para o cinema nacional, mostrando que Walter Salles continua em forma

05/08/2013

abril-despedacadoA cada crítica de um filme brasileiro (ou mesmo latino), repito a mesma coisa: nosso cinema (e dos nossos vizinhos) está crescendo em um ritmo bastante razoável. Hoje já é possível ver nas salas de cinema, em bastante número, filmes falados em português e espanhol que, na sua média, são melhores do que os norte-americanos. Coisa que na primeira metade da década de 90 acontecia muito pouco. Está crescendo a quantidade e a qualidade dos filmes. No caso do Brasil, tudo começou com a surpreendente indicação ao Oscar de O Quatrilho, que fez todo mundo voltar os olhos para o nosso cinema. A partir daí, ganhamos destaque ainda maior com O Que É Isso, Companheiro?, filme de Bruno Barreto também indicado ao Oscar e, principalmente, Central do Brasil, filme que conseguiu um feito raro: indicar uma atriz que não fala idioma inglês para melhor do ano. Ao lado de Central do Brasil, Fernando Montenegro foi indicada ao Oscar de 1998. Nem filme nem atriz levaram o prêmio, mas valeu a experiência e ficou o orgulho.

Mas o melhor ainda estava por vir. Cidade de Deus foi “O” filme nacional, que fez milhares de pessoas se voltarem definitivamente ao cinema daqui, prova disso é o sucesso comercial de Deus é Brasileiro. Confesso que apenas passei a me interessar pela cinemateca nacional a partir do lançamento do filme de Fernando Meirelles. E garanto: vale à pena ir atrás de outros filmes nacionais. Abril Despedaçado é um deles. Ele é o novo projeto de Walter Salles depois de Central do Brasil. Foi feito com grandes pretensões artísticas, mas acabou saindo frustrado das grandes premiações, ganhando uma indicação ao Globo de Ouro, mas ficando de fora do Oscar.

Abril Despedaçado também foi muito mal lançado, pelo menos aqui no Brasil. O filme saiu meses antes nos cinemas norte-americanos (por causa da possibilidade de uma indicação ao Oscar), e somente no final do primeiro semestre de 2001 apareceu no Brasil (já tendo sua imagem bastante desgastada). Certamente a indústria do cinema nacional ainda tem muito o que melhorar, pois Abril Despedaçado é um filme tão bom quanto Central do Brasil, e teria merecido um lançamento nacional em larga escala. Acabou se dando melhor nas locadoras, meses depois. Pelo menos isso…

O tema rural-nordestino, presente em Central do Brasil, continua em Abril Despedaçado. É um filme que fala da pobreza, e da falta de informação das pessoas (estou generalizando aqui) do interior do interior do Nordeste brasileiro que, vivendo sem esperança, pouco fazem – e pouco querem fazer – pra mudar sua situação. Se bem que o filme se passa em 1910, e se hoje ainda há muita desinformação para a população miserável, imagine naquela época.

Basicamente, é a história de uma disputa sem fim entre duas famílias. Tonho (Rodrigo Santoro) deve vingar o nome da sua família matando o filho mais velho da família rival (que matou antes um membro de sua família). Acontece que assim que realizar a vingança, ele sabe que, com a chegada da próxima lua cheia, ele também será morto, e não há nada que os chefões das famílias façam nem queiram fazer para este ciclo ter fim. Quando a camisa manchada de sangue do morto anterior amarela, é hora de se vingar.

É uma história muito triste. O trabalho das pessoas é difícil, repetitivo e não dá esperança nenhuma (eles produzem rapadura). Talvez morrer não seja tão mau, portanto. Mas a esperança eventualmente chega para Tonho, quando ele encontra em seu caminho um casal de artistas de circo de rua, e se apaixona pela mulher. Logo, Tonho finalmente vê um novo significado para a sua vida e tenta convencer seu pai que a disputa entre as famílias nunca levará a lugar nenhum (o que é verdade). A partir daí, Tonho vive o dilema de ou cumprir o seu papel, sendo morto, em respeito a seu pai, ou tentar acabar com a disputa.

Rodrigo Santoro, que faz Tonho, é hoje o melhor ator de sua geração no cinema brasileiro. Não é à toa que está em vários filmes importantes, como Bicho de Sete Cabeças e logo logo vai aparecer em Carandiru (além de também fazer uma ponta em As Panteras 2). Mesmo tendo fama de galã, ele convence como um rapaz pobre e sofrido do campo (o que poderia ser difícil de acontecer, já que o público liga ele diretamente a uma imagem de riqueza e glamour). Assim como em Central do Brasil, há também um menino que tem papel importante no filme. Interpretado por Davi Ramos Lacerda, Pacu é o irmão mais novo de Tonho, que tenta dar apoio a ele ao mesmo tempo que leva cacetada do pai por causa disso.

Tirando as belas interpretações de todo o elenco, e ao lado de Rodrigo Santoro, o principal destaque do filme é a fotografia. A equipe de produção conseguiu transformar o seco e sem graça sertão nordestino em um lugar belíssimo, com um contraste lindo entre o marrom da terra e o azul incessante do céu, explorando bem elementos como a noite e o pôr-do-sol. É talvez uma das mais belas fotografias do cinema brasileiro nos últimos anos.

Com todas suas qualidades, Abril Despedaçado não está livre de falhas. No final, é mais um filme sobre a pobreza e desesperança do povo nordestino. O filme também peca por não aprofundar certos pontos, como a briga entre as duas famílias (a história de Tonho é mais importante do que a disputa, no final das contas), e não dá pra deixar de pensar o tempo todo que o filme, enquanto belo, é extremamente estilizado, moldado para a arte, o que é sem dúvida algo bastante pretensioso. Filmes americanos fazem isso o tempo todo quando querem ser indicados ao Oscar. Você nunca ouviu a frase: “este filme foi feito para o Oscar”?

Mas, com toda a certeza, os pontos fortes sobressaem-se em relação aos pontos fracos, e o saldo geral é que Abril Despedaçado é um filme muito bom, de boas atuações e com uma história, embora já contada tantas vezes, muito boa. É uma lição de esperança, força-de-vontade e coragem em um cenário que não oferece nada disso. Vale a pena ser assistido.

* Texto escrito por Alexandre Koball no Cineplayers


Nesta terça tem Satyricon de Fellini

10/06/2013

satyriconEm junho, o projeto Terça Tem Cinema apresenta o filme Satyricon de Fellini.

Dia: 11 de junho
Hora: 18h30
Local: Miniauditório do Campus Curitiba da UTFPR

Confira a ficha técnica:

Título original: Fellini – Satyricon
Gênero: Drama
Duração: 128 minutos

Ano de lançamento: 1969
País: Itália
Direção: Federico Fellini
Elenco: Martin Potter, Hiram Keller, Max Born, Salvo Randone, Mario Romagnoli, Magali Noël, Capucine, Alain Cuny, Fanfulla, Danika La Loggia, Giuseppe Sanvitale, Lucia Bosé, Joseph Wheeler, Hylette Adolphe.

Sinopse: Na Roma antiga, os amigos Encolpio e Ascilto discutem sobre a propriedade do escravo Gitone, que escolhe ficar com Ascilto. Encolpio então irá se envolver em uma série de aventuras, muitas delas tratando de temas sexuais. O filme é baseado no livro de Gaius Petronius, que foi descoberto em fragmentos, e segue essa estrutura segmentada.


Curiosidades sobre Satyricon

06/06/2013

fellini-satyricon* Gian Luigi Polidoro registrou o título “Satyricon” para um filme seu. Federico Fellini lutou para usar o mesmo nome para seu filme, mas perdeu o caso. Por isso, no original, o título foi trocado para “Fellini – Satyricon”

* A United Artists pagou mais de 1 milhão de dólares pelos direitos de distribuição do filme de Polidoro, para que seu “Satyricon” ficasse fora do mercado até o lançamento da obra de Fellini

* Quando questionado sobre o motivo dos dois protagonistas serem atores estrangeiros e não italianos, Fellini respondeu: “Não há italianos homossexuais”

* Boris Karloff foi convidado para ser Trimalcione, mas estava muito doente para aceitar o papel

* A frase dita pela mulher prestes a cometer suicídio foi “Animula, vagula, blandula, hospes comesque corporis”, supostas últimas palavras do imperador Hadrian antes de sua morte. Hadrian morreu 72 anos depois de Petrônio, o autor de “Satyricon”

Fonte: IMDb


Dolls

26/05/2013

dollsO filme do mês de maio, Dolls (2002), do aclamado ator e diretor japonês Takeshi Kitano, surpreende por trazer um silêncio perturbador e uma beleza avassaladora, caminho oposto ao tomado nos trabalhos anteriores como Hana-Bi (1997) e Brother (2000).

As sequências a seguir tratam de três histórias sobre amor, desilusão, amargura e melancolia. Temas universais que Kitano trabalha com primor e delicadeza, independente do momento histórico ou do lugar, tornando cada historia única, particular.

O início da história mostra a cena de um casal de bonecos do Teatro Bunraku, uma manifestação tradicional da cultura japonesa onde os bonecos não demonstram expressão facial ou emocional. Este inicio traz uma enigmática pista do desenvolvimento dos personagens.

A primeira trama desenvolve-se no rompimento do casal Matsumo (Hidetoshi Nishijima) e Sawako (Miho Kanno), a outra história retrata a obsessão de um homem por uma artista pop e há ainda espaço para o entrelace de um terceiro ato em que um figurão da máfia solitário decide reencontrar um amor do passado. As ações resultam em suicídio, culpa, dependência e dor. Sem dar muitos detalhes, afinal o fator surpresa faz parte, todas as histórias demonstram uma profunda tristeza que não deixa de ser poética e bonita, contestada ou reforçada o tempo todo pela exuberância visual do filme.

Se o tema do Clube para 2013 é “O lugar onde o filme acontece”, Dolls entra com louvor. Neste caso, toda a direção de arte acaba virando uma personagem do filme, essencial para a história e seu entendimento. O contraste entre a expressão quase inexistente do primeiro casal e as paisagens, lugares, figurinos é gritante, toda carga dramática, o grito contido, o choro, o sorriso triste, o amor não correspondido, tudo isso parece estar presente na direção de arte e transborda aos olhos do espectador.

O filme é carregado de beleza e simbologias que enriquecem a leitura, forma tecituras, envolve os personagens. As cores presentes, os bonecos, o fio que une o casal, as estações do ano que marcam a trama, os silêncios constantes formam lacunas ocupadas pela beleza do entorno, dão respiro, tornam o filme uma experiência visual, sensorial, psicológica que fica ecoando mesmo depois de seu fim.

Dolls é uma experiência do belo.

* Texto escrito por Ivana Lemos e Juliana Perrella e distribuído como programa da exibição do filme Dolls


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