Desvendando Watergate

09/06/2011

Existem outros dois filmes que ajudam a compreender o cenário, são eles Nixon (1995), de Oliver Stone e, Todos os Homens do Presidente (1976), de Alan J. Pakula.

Em “Frost/Nixon”, uma das pessoas que ajudam a preparar o apresentador de TV David Frost para a entrevista com Richard Nixon – a primeira concedida após sua renúncia, três anos antes – diz que a sabatina precisa ser contundente a ponto de se tornar “o julgamento” que o presidente dos EUA nunca tivera pelas acusações do escândalo Watergate.

Como mostra o filme de Ron Howard (o mesmo diretor de “Mente Brilhante”), que estreia no Brasil em 20/2, a entrevista célebre de 1977 acabou desempenhando esse papel simbólico, levando um Nixon (1913-1994) exaltado a confirmar a espionagem no comitê do Partido Democrata com escutas ilegais. Uma frase entrou para o folclore americano: “Se o presidente faz, então não é ilegal”.

A encenação do pingue-pongue entre Nixon e Frost, com seus bastidores, já havia feito sucesso no teatro. O autor, Peter Morgan (“A Rainha”), assina também o roteiro do longa, que emplacou cinco indicações ao Globo de Ouro: filme, diretor, roteiro, ator dramático para Frank Langella (que vive Nixon) e trilha.

Na elogiada versão cinematográfica, a entrevista que serviu como “julgamento” para Nixon levanta outro questionamento nos EUA: estaria levando o ex-presidente à segunda instância, com possível redenção por mostrar seu lado mais humano, em conflito entre a inteligência brilhante e a tendência autodestrutiva?

E isso quando um presidente envolvido em crise econômica e guerra impopular está deixando a Casa Branca? O roteirista titubeia. “Se me preocupo que o público tenha compaixão por um homem autodestrutivo, solitário, perdido? Não sei. Pessoas diferentes terão reações diferentes. Mas o filme não redime ninguém”, diz Morgan, que viu indagações semelhantes no longa sobre a rainha Elizabeth 2ª.

“Eu nunca esperava que pessoas saíssem de ‘A Rainha’ tocadas por ela. Ficamos constrangidos, para ser honesto, com aquele grande entusiasmo sobre a monarquia. Mas não acho que isso acontecerá da mesma maneira, não haverá congestionamento de pessoas se filiando ao Partido Republicano. O filme mostra que, com toda sua humanidade, o legado de Nixon ainda é criminoso”, disse, em mesa redonda em Nova York, com a Folha e mais cinco jornais, em novembro.

O efeito George W. Bush, diz ele, tem mais força na revisão dessa imagem. “A atual administração está fazendo um grande trabalho de reabilitar Richard Nixon, que está sendo substituído como o presidente mais odiado de todos os tempos. Agora, ele é apenas o número dois no ranking [risos].”

Cachê

Frost (vivido no filme peloator por Michael Sheen), notório jet-setter inglês rodeado de mulheres, grifes e fama como apresentador de programas populares de TV, pagou pela exclusividade da entrevista. Garantiu a Nixon US$ 600 mil (US$ 3 mi nos valores de hoje, no cálculo do diretor, ou R$ 6,7 mi), mais 10% dos lucros de publicidade.

Era um cachê generoso para enfrentar um entrevistador que se supunha fraco e fútil, o que justifica o choque quando Frost consegue extrair de Nixon frases que ele não parecia ter planejado dizer, como “decepcionei o povo americano”.

O filme especula sobre as motivações do ex-presidente para desabafar, mas, para Howard, não há na obra nenhuma revisão sobre a figura histórica do republicano, que entrou no Salão Oval da Casa Branca em 1969, foi reeleito e renunciou em 1974.

“A simpatia por um personagem não muda sua imagem histórica, algo que passa por um entendimento mais completo. Nixon era um visionário formidável, mas destruído por suas emoções conturbadas. Não parecia confortável sob a própria pele”, diz Morgan.

Nixon compositor

A família de Nixon demonstrou-se interessada pelo projeto do filme. Os herdeiros concederam entrevistas na fase de pesquisa e autorizaram o uso de uma canção composta pelo ex-presidente ao piano.

Apesar de ter entrevistado seis dezenas de pessoas entre a criação da peça e do filme, em especial membros das equipes de assessores de Nixon e Frost, que rodearam a entrevista, Peter Morgan se deu a liberdade de inventar algumas cenas.

Na principal delas, na véspera do último dia de gravações, Nixon telefona bêbado para Frost e o desafia a ser mais mordaz. Não há relatos de que isso tenha acontecido, mas o roteirista se baseou nos testemunhos de que Nixon, quando em final de mandato, telefonava embriagado para pessoas e depois se esquecia de que o fizera, sob efeito da mistura com moderadores de humor.

“Era algo que ele faria. Pensei que, mesmo que isso não tenha acontecido, dramaturgicamente seria responsável.”

Escrito por DANIEL BERGAMASCO
da Folha de S.Paulo

Para saber mais sobre o caso Watergate é possível ler esta matéria da revista Abril.

Segue abaixo o trailer oficial:

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Frost/Nixon

09/06/2011

Direção: Ron Howard.
Elenco: Frank Langella, Michael Sheen, Kevin Bacon, Sam Rockwell, Matthew Macfadyen, Oliver Platt, Rebecca Hall, Toby Jones.
O escândalo Watergate é uma página negra da história americana. Mas ao contrário de outros colapsos que abalaram os Estados Unidos como a Guerra do Vietnã, a crise de 29 ou o assassinato de John Kennedy, esse incidente deu pouco pano para a manga no cinema. Seu exemplar mais conhecido e contundente é “Todos os Homens do Presidente”. O filme lançado em 1976 por Alan J. Pakula disseca os percalços que levaram os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein a desmascarar o presidente Richard Nixon e sua conduta criminosa de solicitar escutas na sede do partido democrata.
Além desse filme, umas poucas menções a Watergate foram abordadas em “Nixon”, de Oliver Stone, e uma paródia ainda foi feita por Robert Zemeckis em “Forrest Gump”. Passados 26 anos do incidente, o diretor Ron Howard (Uma Mente Brilhante) retoma as repercussões do escândalo em Frost/Nixon, num belo trabalho que retrata os bastidores da entrevista do apresentador britânico David Frost com Richard Nixon, três anos após o chefe de estado ter renunciado a presidência. A conversa, gravada em quatro dias diferentes, foi marcada por estratégias e momentos tumultuosos nos bastidores.
Enquanto Nixon pretendia valer-se da sua retórica e fazer da entrevista um trampolim para a renovação de sua carreira política, Frost buscava retornar aos Estados Unidos onde não obteve sucesso com seu programa de variedades. Para isso, teria que fazer com que Nixon admitisse seus erros e explicasse Watergate, assuntos que não vieram à tona no seu discurso de renúncia. O material gerou uma das entrevistas mais vistas da história da televisão e ganhou os palcos antes de ir às telas.
Representando os mesmos papéis da montagem teatral, Michael Sheen – o Frost – e Frank Langella – o Nixon – protagonizam um duelo pessoal pela melhor performance; tão acirrado quanto a própria disputa travada pelos personagens reais no incidente. Na vida real Frost levou a melhor. Na ficção, o Nixon de Langella foi quem ganhou indicação para os festivais, inclusive ao Oscar de melhor ator.
Visto por muitos como um diretor de mão pesada, Ron Howard mostra em Frost/Nixon sua capacidade de surpreender. Se em trabalhos anteriores o cineasta produziu filmes maçantes, nesse ele abriu mão da habitual mesmice burocrática. Filmes políticos são geralmente chatos e tediosos e são bem diferentes do clima eletrizante e da estrutura movimentada do filme que ele concebeu. Para ter esse efeito, colaboram a edição em forma de making-of – com assessores do político e do apresentador narrando os episódios para as câmeras – e a habilidade do diretor atrás das câmeras. Um close-up aqui, outro ali e as lentes vão revelando imagens fortes, onde uma única expressão ou um silêncio embaraçoso são vitais para a compreensão dos fatos.
Nesse aspecto, outro recurso importante é a trilha sonora de Hans Zimmer. É ela, ou a ausência dela, que ambientam o suspense e aguçam o poder das imagens. Mas nada foi mais importante para o mérito do filme do que a caracterização de Langella e Sheen de seus personagens. David Frost é o apresentador de auditório mulherengo e de erudição rasa, mas brilhante na frente das câmeras. E Sheen transparece bem essa essência.
Nos primeiros dias de entrevista ele é engolido pela sabedoria e a imponência sofista de Richard Nixon, um leão ferido, mas sedento para sair da jaula de isolamento que é sua vida fora da vida pública. Uma das cenas mais emblemáticas do filme acontece quando o presidente, embriagado, liga para Frost e desabafa nas vésperas da última gravação: dessa disputa, só um deles vencerá… Não foi fácil para Langella humanizar um dos presidentes mais odiados dos Estados Unidos. E ele conseguiu. É impossível não se compadecer com a derrocada política e até mesmo psicológica de Nixon.
Com tantos adjetivos favoráveis, Frost/Nixon só podia entrar para a safra dos grandes filmes sobre os bastidores da política e da comunicação de massa tais como, “Rede de Intrigas”, “Todos os Homens do Presidente”, “A Montanha dos Sete Abutres” e o recente “Boa Noite, Boa Sorte“. Mesmo não tendo levado nenhuma estatueta das cinco que concorreu no Oscar, faz um recorte interessante de um episódio histórico ainda não apagado na sociedade americana.
Texto escrito por Charles M. Helmich


Terça tem cinema fará exibição extra durante a II Circularte

03/06/2011

Começa na próxima segunda-feira a Circularte – II Semana de Artes na UTFPR, promovida pelo Núcleo de Cultura e Comunicação do Campus Curitiba.

Dessa vez, o Terça tem cinema irá participar com uma exibição no dia 10 de junho, às 18h30, no miniauditório do Campus Curitiba. O filme extra será Frost/Nixon, que tem a ver com o tema do clube de cinema para 2011 (“realidade ou ficção?) e com o tema do evento (arte e comunicação). Apareçam!

Sinopse de Frost/Nixon:
Richard Nixon (Frank Langella) permaneceu em silêncio por três anos após renunciar à presidência dos Estados Unidos. Em 1977 ele concordou em dar uma entrevista, visando esclarecer pontos obscuros do período em que esteve no governo e usá-la para uma possível volta à política. O entrevistador do programa foi o jovem David Frost (Michael Sheen), o que fazia com que Nixon acreditasse que seria fácil dobrá-lo. Entretanto o que ocorreu foi uma grande batalha entre os dois, que resultou em um confronto assistido por 45 milhões de pessoas ao longo de quatro noites.

Programação completa da Circularte


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