Close-Up (1991)

03/07/2011

Qual seu cineasta (artista) predileto? Você sabe muitas coisas sobre ele? Onde nasceu, cresceu, estudou, o que está rodando no momento, sua filmografia? Você conhece muitas particularidades da vida dele?

Agora, imagine se você fosse confundido com ele e, esta situação lhe trouxesse vantagens? O que você faria se o  confundissem com seu ídolo? Seria fácil dizer que não é ele e,sim uma pessoa comum, sem nenhum atributo, a não ser o fato de ser fã da mesma pessoa…

Bom, esta é a trama básica do filme experimental Close- up, do importante cineasta iraniano Abbas Kiarostami.

O filme documenta um crime: a prisão e o julgamento de um jovem, que engana uma família, se passando por seu ídolo, o diretor Mohsen Makhmalbaf.

Para que o filme fosse realizado são necessários alguns esforços, e é onde fica possível perceber toda a paixão que os iranianos tem pelo cinema. O cinema está para o povo iraniano, assim como a televisão está para os brasileiros. E juro que eu gostaria que fosse o contrário…

Quando levanto a questão da paixão pelo cinema, quero dizer que o filme Close-up somente existe por esta paixão dividida por todo um país. O longa só pôde ser realizado porque o criminoso Hossein Sabzian e a família lesada têm como ídolo o real cineasta Mohsen Makhmalbaf, porque Kiarostami também é cineasta e se interesa pelo fato acontecido e também porque o juiz do caso, Haj Agha também é admirador do cinema e permite que um equipe adentre seu tribunal com câmeras e aparatos cinematográficos.

Então temos em Close-up uma discussão que existe pelo e através do cinema. Temos o cinema unindo uma nação, temos um crime cometido em nome do cinema e temos um discussão real acontecendo nas telas fictícias do cinema. Temos um misto de documentário – no julgamento real – e de ficção – nas cenas roteirizadas.

Que situação encontramos ao classificar Close-up? Seria ele mais um documentário com pé na ficção ou seria uma ficção com um quê de documentário? Realmente a forma como o filme é construído deixa dúvidas até o último momento e, assim, sucitará discussões e pesquisas de seus expectadores. A história iraniana é real? São muitos “Ses” os provocados por
Kiarostami.

Abbas Kiarostami tem uma extensa lista de filmes dirigidos, roteirizados, produzidos, editados por ele. Falo isso porque pensei em citá-los aqui porém, são tantos que não caberiam neste pequeno papel. Mas, faço questão de deixar uma pequena lista para que vocês se deliciem com as produções deste povo tão distante e que ama tanto o cinema. Aqui alguns dos títulos dos filmes que mais se destacaram entre as produções de Kiarostami: E a Vida Continua (1991); Onde é a Casa do Meu Amigo? (1987); Gosto de Cereja (1997); O Vento nos Levará (1999); Através das Oliveiras (1994); Dez (2002); Copie Conforme (2010). No momento ele está em fase de pré-produção do filme The End.

*Graci Mello escreveu este texto. Trata-se do programa distribuído durante exibição de “Close-Up”, no dia 28 de junho de 2011.


Captar o Mundo (sobre Abbas Kiarostami)

21/06/2011

Se Abbas Kiarostami é um cineasta difícil, isto se deve muito por praticar um cinema da curiosidade. Da sua curiosidade diante do mundo, e da nossa também. Seus filmes parecem partir sempre de uma necessidade de conhecer e se relacionar com o mundo, e o que ele nos pede como espectadores de cinema não é coisa mais simples do que o desejo de acompanhá-lo em sua jornada (e não é por acidente que a maior parte dos seus filmes se constrói como longos percursos).

Em Close-Up um homem se faz passar pelo diretor Mohsen Makhmalbaf, acaba enganando uma família de classe média e depois é preso. Kiarostami se interessa pela história e resolve fazer um documentário sobre o assunto. Leva sua câmera para captar estas pessoas, e mais importante ainda, as convence a reencenar boa parte do ocorrido. No processo da realização do filme, os motivos de todos ficam mais claros e as partes se aproximam; no fim, o impostor chegará até mesmo a conhecer o verdadeiro Makhmalbaf. Close-Up, Kiarostami nos lembra, é um plano que nos aproxima do personagem, porque “de longe, as pessoas desconfiam uma das outras. O close-up cria outra idéia, real, do personagem”1.

Não é à toa que em seu cinema predomine com tanta freqüência o fora de campo e o não-dito. Não veremos a velha senhora em O Vento nos Levará, assim como não saberemos ao fim de A Vida e Nada Mais se o cineasta teve sucesso em sua jornada. Kiarostami prefere confiar em nossa capacidade de imaginar, de completar aquilo que ele apenas sugere. Porque é também numa crença e respeito muito grande pelo espectador que se constrói este cinema.

É assim que se constrói aquele momento mágico em ABC África em que as luzes se apagam e a câmera permanece ligada a filmar o escuro enquanto Kiarostami e sua equipe discutem. Neste momento da ausência da imagem, talvez seja também aquele em que nós espectadores começamos a compreender melhor o que é o universo que Kiarostami aborda e por conseqüência muito do próprio filme.

ABC África não chega a ter a força de Close-Up, obra-prima sobre o cinema que este é, mas colocá-los lado a lado não deixa de ser bastante interessante. Porque num primeiro momento, ABC Áfricaparece um contraponto pessimista do seu documentário anterior. Afinal, se em Close-Up a câmera acaba tendo o poder de intervir, de que nada no julgamento de Ali Hossein Sabdzian não deixa de ser alterado pela sua mera presença, não se pode dizer o mesmo emABC África, onde ela somente registra. Mas isto seria não pôr em consideração tudo aquilo que o cinema de Kiarostami acredita que só se confirma no que esta câmera registra: o mundo, a vida, o sobreviver. ABC África é, de todos os filmes de Kiarostami, o de assunto mais pesado, mas paradoxalmente também é (com a possível exceção de Onde Fica a Casa de Meu Amigo?) o seu trabalho mais acessível, não porque o cineasta fuja de nos confrontar com a realidade à sua volta (a cena onde o pedaço de pano, com um bebê morto dentro, é retirado de um hospital continua ressoando muito depois do filme acabar), mas porque ao reafirmar seu credo como o faz aqui não poderia ser diferente. Cada vez que a câmera de Kiarostami capta uma criança ao longo do filme, a tela do cinema acaba por ser tomada por uma inevitável energia.

Vive-se sempre no cinema de Kiarostami (até mesmo quando seu protagonista é um possível suicida como em Gosto de Cereja), mas para isso é preciso que haja um espaço em que se viva. Daí a importância da geografia nos filmes de Kiarostami. Não é à toa que quando a luz entra na já mencionada cena da escuridão em ABC África, descobrimos que a câmera está apontada para a janela. Da mesma forma, não se capta tantas cenas de paisagens em seus filmes por nada, mas porque é preciso registrar onde as pessoas vivem. Isto fica claro nos seus três filmes sobre a região de Koker (Onde Fica a Casa de Meu Amigo?, A Vida e Nada Mais e Através das Oliveiras), filmes estes que se revelam como reflexões sobre Koker e como se vive ali (os dois últimos foram feitos após um terremoto que arrasou a região e que é lembrado com freqüência pelos moradores). A geografia de Koker não deixa de ser tema dos filmes, algo ampliado em A Vida e Nada Mais e Através das Oliveiras pela forma que ela deixou marcas em cada pessoa que o cineasta encontra.

Tudo isto dito, a grande questão no cinema de Kiarostami é como captar esta vida, este mundo? Como chegar até ele? Como Close-Up nos lembra, não se trata do puro e simples documental como uma leitura pobre do realismo que uma certa crítica burra até hoje propaga. Com toda a simplicidade que a mise en scène de Kiarostami sempre busca, ela nunca é desprovida do artifício como na excepcional passagem de Onde Fica a Casa de Meu Amigo? na qual o protagonista observa um outro garoto (que pode ou não ser aquele que procura) enquanto este segura um volume de madeira que permite que nós vejamos somente sua calça (idêntica àquela que o garoto que está sendo procurado vestia na última vez que o protagonista o viu).

O que Kiarostami acaba por fazer é registrar o encontro das suas idéias, do ponto de partida que ele como cineasta concebeu com este mundo, e desse encontro resultara sempre um filme diferente. Nos percursos de Kiarostami o que se aprende no trajeto é sempre muito mais importante do que a chegada. Da mesma forma, muito da graça e poesia destes filmes reside na forma como as pequenas coisas vão influindo neles.

O que nos faz retornar novamente ao espectador e no profundo respeito que Kiarostami tem por ele. Porque tudo isto que o cineasta faz só tem como se completar com a nossa participação, este segundo encontra agora entre nós e o filme. Porque Kiarostami tem curiosidade em relação ao mundo, e este também nos inclui. Se este cinema nos soa difícil num primeiro instante, será só neste, porque o que Abbas Kiarostami nos pede é algo que quem ama cinema está sempre disposto a dar: o nosso desejo de nos perdermos naquilo que o cinema apresenta.

* * *

Nisso tudo a obra de Kiarostami se insere dentro de uma opção do cinema moderno por uma dissolução da mise en scène, onde o empenho do cineasta se volta em se perder dentro da encenação da relação entre os personagens e seu mundo (pensemos aqui num Pialat ou Cassavetes, por exemplo). Pois bem, eis que surge Dez, o ultimo trabalho de Kiarostami, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo do ano passado, para nos deixar ainda mais confusos. Kiarostami vêm buscando uma depuração de estilo desde seus filmes mais antigos aos quais temos acesso. Que Dez leve isto adiante, não é, em si, nenhuma novidade. Só que o que Abbas Kiarostami conseguiu aqui é algo único cuja riqueza não tem como ser apreendida numa única visita, ainda mais no meio de uma mostra de cinema, mesmo que o passar do tempo só enriqueça a lembrança do que é o filme.

Dez não deixa de ser uma espécie de ápice do projeto descrito no inicio do parágrafo anterior. Um carro como espaço, duas câmeras, uma voltada para a motorista e outra para o passageiro, uma longa preparação anterior com os atores (e um microfone escondido que permite que o diretor lhes faça recomendações durante as filmagens, mas nenhum roteiro). 10 conversas que ganham vida diante desta câmera. Apenas isso. Ao cineasta cabe, após a concepção da idéia do filme, somente editar todo o material registrado.

Qual a função do diretor de cinema, nos vemos diante de Dezforçados a perguntar (esta é apenas uma das diversas perguntas que o filme nos leva a levantar)? Especialmente porque assistindo-o não se há por nenhum momento a menor dúvida de que se trata de um filme de Abbas Kiarostami. Se o cineasta à primeira vista quase se exclui do processo da realização de seu filme, tudo o que ele faz não deixa de ser completamente coerente com toda a obra que desenvolveu até ali e o resultado final do que está na tela, a progressão quase natural dela. A penúltima seqüência é de uma força e beleza que não deixa a dever a outros tantos grandes momentos que o cinema de Kiarostami já nos legou.

Apesar de toda a atenção focada no como o filme foi feito, o que interessa em Dez é o que se vê na tela e seu impacto para aqueles que se dispuserem a dialogar com ele. Com Dez, Abbas Kiarostami parece ter conseguindo levar ao limite o seu desejo de captar o mundo.

Texto escrito por Filipe Furtado.


Close-up

21/06/2011

Filme: Close-up

Título Original: Nema-ye Nazdik
Diretor: Abbas Kiarostami
Ano: 1990
País: Irã
documentário (ou não?)

É necessário parar, pois aqui não se trata de um filme normal. Respire fundo até abrir sua mente para uma nova linguagem.

Este documentário meio ficção parte de um fato curioso ocorrido no Irã. Certo rapaz foi preso por se fazer passar pelo cineasta Mohsen Makhmalbaf (o mesmo de Salve o Cinema). E o que queria o sujeito com seu crime? Não muito, não era um golpista ou coisa do gênero, nada de criminoso. Se passou pelo cineasta pelo simples fato de o terem confundido e pelo prazer de poder ser, por alguns momentos, aquele ídolo que tão bem representa o sofrimento do povo iraniano. Kiarostami não aguentou tamanha tentação e foi atrás do rapaz na prisão. (assista a cena do youtube)

Depois, Kiarostami levou o rapaz para a mesma casa na qual cometeu os crimes e fez com que, tanto o criminoso como as vítimas atuassem em uma representação daquilo que havia ocorrido. E ainda envolveu quem na trama? O próprio Makhmalbaf. Loucura.

Mas que coisa incrível! Que poesia! Kiarostami busca conversar com seu personagem atrás do que motivou aquele crime e só encontra uma grande paixão dele por cinema. No julgamento, o próprio Kiarostami pede permissão para fazer indagações. Adoro esta cena em particular, pois revela algo que comentei no Salve o Cinema, do poder que o cinema iraniano tem em sua sociedade. A tal ponto que a pergunta de Kiarostami é levada em consideração no mesmo peso que a do juiz, que também é entrevistado.

Este caminhar na linha tênue entre a ficção e a realidade me traz muito interesse. Em primeiro lugar porque enaltece o poder do naturalismo. Em segundo lugar porque questiona a necessidade de se qualificar um filme nesses aspectos. Eu costumo colocar em meus filmes – e faço disso uma meta – aquela clássica frase “baseado em fatos reais”, como um selo de qualidade. Ora, a realidade dos fatos não faz de um filme ruim um bom filme. Nem tampouco determina que um filme fantástico não possa ser, em sua essência, mais real do que um filme naturalista. E, afinal de contas, todo e qualquer filme é baseado em fatos reais, por mais fantásticos que esses sejam.

Texto do 100 filmes.

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