Entrevista com Adriana Falcão para TPM

30/05/2009

No mês de março, a TPM (Trip para Mulheres) publicou uma entrevista com Adriana Falcão, autora de A Máquina. Fomos no site e pegamos a entrevista pra vocês conferirem na íntegra. Dá pra ler por lá também, que tem fotos, aqui!

Adriana Falcão

Carioca de 48 anos, Adriana Falcão conseguiu a façanha de viver da escrita no Brasil

Sabe as maluquices da dona Nenê, interpretada por Marieta Severo em A Grande Família? Muitas delas vêm de Adriana Falcão, uma das roteiristas da série. Carioca de 48 anos, ela conseguiu a façanha de viver da escrita no Brasil. Publica livros, artigos em jornais e coloca os sabores de sua vida nos personagens que cria. Tudo porque aprendeu a olhar com humor para os dramas que vivenciou, como o suicídio do pai e, depois, a morte da mãe. Sinta o frio na barriga de seus altos e baixos na entrevista a seguir

Há alguns anos a escritora Adriana Falcão, 48, visitou uma taróloga e ouviu: “De acidente aéreo, você não morre”. Na época, duas de suas filhas foram para Londres fazer intercâmbio. Adriana não titubeou: “Vou junto!”. “Pensei que, se fosse com elas, o avião não cairia.” Ela levou o plano adiante. Só que, como a vida às vezes parece seriado, Adriana acabou no avião errado, sozinha. “Deu uma confusão no aeroporto e eu fui até Londres chorando, achando que o avião delas iria cair.”

A história poderia ser tema do seriado A Grande Família, que Adriana ajuda a escrever há oito anos, desde a estreia. “Sou a Nenê”, diz a loira de olhos azuis, referindo- -se à personagem da mãe meio histérica interpretada por Marieta Severo.

O episódio, no caso, o real, diz muito sobre a escritora, autora de 11 livros, entre eles A Máquina (da editora Objetiva, que virou sucesso no teatro e no cinema nas mãos de seu marido, o diretor João Falcão, e revelou atores como Wagner Moura e Lázaro Ramos), Mania de Explicação, que, na primeira edição, vendeu 60 mil exemplares de 2001 até hoje, e o infantil Sete Coisas para Contar e se Divertir!, lançado em novembro de 2008 – os dois últimos pela editora Salamandra. Há quatro meses, ela é também colunista de O Estado de S. Paulo. A história mostra que Adriana sabe rir de si mesma, é exagerada, supermãe e ansiosa, muito ansiosa, como ela fez questão de lembrar várias vezes durante a entrevista.

Um pouco maluca
Adriana garante que a ansiedade é herança de família. E conta, com tranquilidade, que seu pai, depressivo, se matou quando ela tinha 18 anos. Sua mãe, ansiosa, morreu de overdose de calmantes (ou engasgada de tão grogue que estaria por causa dos remédios) quando a escritora tinha 31. “Sabemos que isso tem componente genético.”Apesar de ter tido uma infância complicada – “eu estava sempre preocupada com meus pais, cuidando deles”– essa carioca criada em Recife não é de reclamar.“Tive pais maravilhosos, que me deram coisas incríveis, tenho um casamento feliz há 20 anos e vivo de escrever. Mas tinha que ser um pouco maluca”, diz a mulher de João e mãe de Isabel, 16, Clarice, 19, e Tatiana, 29.

A história de Adriana daria um filme (não dá para fugir do clichê). Além de ter lidado com a morte trágica dos pais, ela casou aos 17 anos com seu professor de matemática, engravidou aos 18 e cursou arquitetura porque “tentou passar em primeiro lugar no vestibular”. Virou publicitária e estava feliz em Recife. Até que o atual marido, há dez anos, decidiu mudar para São Paulo, e depois para o Rio, cidade que Adriana adotou apesar de detestar calor.

Ela conversou com a Tpm em seu escritório. Fechou as portas e ligou o ar-condicionado, apesar da vista para o Leblon. Acendeu incenso, fumou, tomou café, Coca-Cola e comeu chocolate. “Hoje corri na esteira. Tenho direito”, decretou, pouco afeita às regras de um mundo politicamente correto sem prazer e sem gosto.

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A Máquina – ficha técnica

29/05/2009

Ah, o amor...

Título original: A Máquina
Gênero: Drama
Duração: 90 min.
Ano de lançamento: 2006
País: Brasil
Estúdio: Diler & Associados
Distribuidora: Buena Vista International
Direção: João Falcão
Roteiro: João Falcão e Adriana Falcão, baseado em livro de Adriana Falcão e em peça teatral de João Falcão
Produção: Diler Trindade
Música: DJ Dolores, Chico Buarque e Robertinho do Recife
Fotografia: Walter Carvalho
Direção de arte: Marcos Pedroso
Figurino: Kika Lopes
Edição: Natara Ney
Elenco: Paulo Autran (Antônio – no futuro), Gustavo Falcão (Antônio – jovem), Euclides Pegado (Antônio – 5 anos), Mariana Ximenes (Karina), Vladimir Brichta (José Onório), Cristiane Ferreira (Maria da Graça), Wagner Moura (Apresentador de TV), Lázaro Ramos (Doido).

Sinopse:
Em Nordestina, cidadezinha perdida no sertão, “Karina da rua de baixo” (Mariana Ximenes) sonha em ser atriz e partir para o mundo. Antes que seu amor lhe escape, “Antônio de Dona Nazaré” (Gustavo Falcão) adianta-se numa cruzada kamikaze para trazer o mundo até Karina. Uma história em que os sonhos contradizem a realidade, as condições geográficas e políticas ameaçam conter a vida, e o amor desempenha o papel de elemento transformador.


A Máquina

28/05/2009

Começando os trabalhos em relação ao próximo filme exibido, “A Máquina”, dirigido pelo João Falcão e escrito pela Adriana Falcão, vamos falar um pouco de prosa-poética.

A Adriana não inaugura o estilo, mas temos que admitir que ela é uma exímia artífice. A ideia é escrever em prosa, utilizando elementos da poesia para gerar significado. O resultado?

Segue, aqui, um pequeno trecho de um de seus livros, chamado “Mania de Explicação”:

Solidão é uma ilha com saudade de barco.

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.

Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.

Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer “eu deixo” é pouco.

Pouco é menos da metade.

Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.

Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro da sua cabeça.

Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.

Agonia é quando o maestro de você se perde completamente.

Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento.

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.

Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.

Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.

Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

Renúncia é um não que não queria ser ele.

Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.

Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente.

Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.

Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.

Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.

Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.

Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.

Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.

Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é fevereiro.

Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.

Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.

Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.

Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.

Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.

Perdão é quando o Natal acontece em maio, por exemplo.

Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.

Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.

Desatino é um desataque de prudência.

Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.

Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.

Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

Emoção é um tango que ainda não foi feito.

Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.

Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.

Desejo é uma boca com sede.

Paixão é quando apesar da placa “perigo” o desejo vai e entra.

Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero…Também não. É um desaforo… Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?

Esse estilo, telegráfico e multisígnico, gerou um outro livro similar, que é o “Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento”. Tão bom quanto.

Ah! Em tempo, o trailer do filme:


Ressaca!

27/05/2009

[o texto abaixo está no folder distribuído durante a apresentação de Alta Fidelidade, no dia 25/05/2009]

Estar de ressaca, em muitos sentidos, quer dizer que aproveitamos uma grande euforia por alguns instantes e, depois, temos que lidar com as consequências desses atos. Significa ter planos e adiá-los até o ponto em que sua não realização nos atinge como uma bala de canhão. Significa acreditar em seu próprio potencial, mas não realizar nada de verdade por medo de que a única coisa real seja sua própria fé nesse potencial.

Tanto o filme quanto o livro Alta Fidelidade (High Fidelity, de 2000, o filme, dirigido por Stephen Frears, o livro escrito por Nick Hornby) falam de chegar a um ponto da sua vida e não ter realizado nada de concreto. E isso gera uma imensa ressaca. Não por acaso o herói da história está, em geral, em casa reorganizando seus discos, na loja em que possui e passa o dia afugentando clientes com gosto musical ruim ou em um típico pub inglês.

Mas, afinal, acabar com a ressaca significa, necessariamente, amadurecer?

Muito da força da história está em não querer responder essa pergunta. Mesmo com algumas pequenas mudanças estruturais do livro para o filme, Rob (Gordon ou Fleming, a gosto do freguês) dá alguns passos tímidos em relação a assumir seu relacionamento, a expandir os negócios, mas, felizmente, não temos aqui aquele momento catártico típico das produções que vão direto para a Sessão da Tarde. Rob, pelo menos no que concerne a esse humilde jornalista, toma uma atitude em relação a sua vida não por ter colocado tudo em perspectiva e descoberto o quanto ele foi mal com as outras pessoas.

Ele dá tímidos passos a frente simplesmente porque está cansado de ouvir de seus pais, de sua [ex-] namorada e de seus amigos o quanto ele poderia ser e não é. Não existe iluminação nem nada do gênero. Só um homem que não entende muito bem em que errou no passado, se é que errou.

Alta Fidelidade (nome que funciona muito bem nas duas línguas) diz respeito tanto à loja e a coleção de discos (além, claro, da obsessão com música, que acaba permeando todo o filme), quanto de se manter fiel a si e a seus próprios sonhos. E isso, meus amigos, é muito mais real do que a maior parte das histórias que estamos acostumados a ouvir e ver.

[Texto escrito ao som do último ábum da banda Móveis Coloniais de Acaju, C_mpl_te, baixado legalmente no site da Trama Virtual]


É hoje!

25/05/2009

O Segunda tem cinema exibe hoje, às 18h30, no Miniauditório do Campus Curitiba da UTFPR o filme Alta Fidelidade. Apareçam!

Enquanto a sessão não começa, fiquem com algumas curiosidades sobre o longa (há spoilers!):

  • A loja de discos “Vintage Vynil”, mencionada pelos personagens durante o filme, realmente existe e se localiza em Evanston, cidade natal de John Cusack.
  • O homem que não sai da loja de Rob é Alan S. Johnson, vocalista da banda norte-americana Maple – cujo cartaz está pendurado em um dos estandes.
  • Na cena em que Rob conversa com Liz, depois do funeral do pai de Laura, uma bandeira da Dinamarca e fotos do país podem ser vistas na prateleira sobre o fogão, logo atrás dos atores. A referência foi feita para a atriz Iben Hjejle, que é de nacionalidade dinamarquesa.
  • Depois que Rob tem a visão de Bruce Springsteen, ele diz “Goodluck, goodbye” (boa sorte, adeus). Este é o último verso da canção Bobby Jean, de autoria do cantor.
  • Em várias cenas, Rob está vestindo camisas com a estampa “Wax Trax! Records”. O local onde funciona a loja de discos de Rob já funcionou como filial da loja Wax Trax! Records, em Chicago.
  • Na cena em que Laura e Rob ouvem os vizinhos do andar de cima fazendo sexo, Laura está lendo um livro intitulado “Love Thy Neighbor” (Ame o seu vizinho). Mais tarde no filme ela vai morar com mesmo vizinho que fazia barulho sobre sua cabeça.
  • A maioria dos adesivos e folhetos na frente da máquina registradora são de bandas de Chicago, ou que gravaram seus discos na cidade. Algumas delas são Urge Overkill, Falling Wallendas, Veruca Salt e Liz Phair. Estas bandas têm membros que já foram vistos passeando em Wicker Park (uma das locações do filme) e no bar The Rainbo Club, onde a cena do pedido de casamento foi rodada.
  • Barry diz que Rob está vestindo um “suéter Cosby” e imita a voz do comediante Bill Cosby enquanto fala. A atriz Lisa Bonet, que interpreta a cantora Marie DeSalle, estrelou no programa The Cosby Show, entre 1984 e 1992.
  • O CD de Marie DeSalle tem as seguintes músicas listadas em sua capa (repare que todas são hits da música pop):

1. Baby I Love Your Way
2. Eartha Kitt Times Two
3. Ghostbusters
4. Beat It
5. Baby Got Back
6. 911 is a Joke
7. I Will Survive
8. Mmm Bop
9. My Heart Will Go On
10. You Can`t Have It
11. The Time is Now

  • Rob diz que ele é uma pessoa instruída, que lê livros como “Love in the Time of Cholera” (Amor em tempos de cólera). Este livro tem um papel importante em outro filme estrelado por John Cusack, Serendipity.
  • O nome de Rob também pode ser dado como uma referência a Robert Gordeon, um cantor pouco conhecido nos anos 70, cujos discos, sem dúvida, poderiam ser encontrados na loja de Rob.

    (Do site Cinema em Cena)


Melancolia e música pop

24/05/2009

Uma questão:

Se ouve música pop porque se está infeliz? Ou se está infeliz porque se ouve música pop?

“Algumas das minhas canções favoritas: ‘Only Love Can Break Your Heart’, de Neil Young; ‘Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me’, dos Smiths; ‘Call Me’, com Aretha Franklin; ‘I Don’t Want To Talk About It’, com qualquer um. E há também ‘Love Hurts’ e ‘When Love Breaks Down’ e ‘How Can You Mend A Broken Heart’ e ‘The Speed Of The Sound Of The Loneliness’ e ‘She’s gone’ e ‘I Just Don’t Know What To Do With Myself’ e… algumas destas canções eu ouvi cerca de uma vez por semana, em média (trezentas vezes no primeiro mês, e de vez em quando depois disso), desde os dezesseis ou dezenove ou vinte e um anos de idade. Como é que isso pode não deixar você magoado de alguma forma? Como é que isso pode não transformá-lo no tipo de pessoa passível de se quebrar em pedacinhos quando seu primeiro amor dá todo errado? O que veio primeiro, a música ou a dor? Eu ouvia a música porque estava infeliz? Ou estava infeliz porque ouvia a música? Esses discos todos transformam você numa pessoa melancólica?

As pessoas se preocupam com o fato de as crianças brincarem com armas e de os adolescentes assistirem a vídeos violentos; temos medo de que assimilem um certo tipo de culto à violência. Ninguém se preocupa com o fato de as crianças ouvirem milhares – literalmente milhares – de canções sobre amores perdidos e rejeição e dor e infelicidade e perda. As pessoas afetivamente mais infelizes que conheço são as que mais gostam de música pop; e não sei se foi a música pop que causou tal infelicidade, mas sei que elas vêm ouvindo as canções tristes há mais tempo do que vêm vivendo suas vidas infelizes.”

Trecho do livro Alta Fidelidade, de Nick Hornby


A última lista, afinal

22/05/2009

“Cinco melhores discos de todos os tempos

1) ‘Let’s get it on’, de Marvin Gaye
2) “This is the house that Jack built’, Aretha Franklin
3) ‘Back in the USA’, Chuck Berry
4) ‘White man in the Hammersmith Palais’, do Clash
5) ‘So tired of being alone’, de Al Green”


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