Hoje tem Mostra CINETVPR e plenária preparativa para a Jornada Cineclubista do Paraná 2011

16/12/2010

A MOSTRA CINETVPR pretende fazer um balanço crítico sobre a CINETVPR – Escola Supeior Sul Americana de Cinema e Televisão do Paraná, a sua reformulação e continuidade.

Haverá exibição de trabalhos realizados pelos estudantes do curso de cinema da FAP/CINETVPR.

Após a sessão de filmes, haverá o paínel “A Produção Artística e Acadêmica da CINETVPR”, com a presença dos realizadores e a mediação de Rodrigo Bouillet (Cine+Cultura / MINC) e Pedro Plaza (ex-professor da CINETVPR e professor da UFPR).

+ Às 16 horas será realizada a plenária preparativa da Jornada Cineclubista do Paraná 2011, com a presença do Prof. Emanuel Appel (UFPR) e Rodrigo Bouillet (Cine+Cultura).

Filmes da Mostra (ordem alfabética):

1. A Infância de Margot – Bruno de Oliveira
2. Aranceles – Melo Viana
3. Colorado Esporte Clube – Fábio Allon
4. Garoto Barba – Christopher Faust
5. Hollywood – Laura Montalvão, Marcos Serafim e Thiago Benites
6. O Muro – Diego Florentino
7. Oscar 02/07 – João Krefer
8. Pastoreio – Alexandre R. Garcia
9. Reminiscências – Aly Muritiba
10. Wannabe – Maurício Ramos Marques

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A vida cotidiana é um troço bem complexo*

15/12/2010

Cinco meninos chegam à porta de uma senhora da vizinhança para pedir: doces ou travessuras? Todos, menos um, vestem fantasias dos mais famosos super-heróis dos quadrinhos. Estão lá o Super-Homem, o Batman, seu companheiro Robin e o Lanterna Verde. A dona da casa olha o quinto menino e não se convence – seus trajes não lhe parecem os de um super-herói. A resposta do pequeno Harvey Pekar (Daniel Tay) deixa clara a sua falta de interesse pelas vazias convenções americanas: “Sou só uma criança da vizinhança, ok?”.

É com esta cena que o filme “Anti-Herói Americano” (American Splendor, EUA, 2003) começa a falar sobre a vida do roteirista de quadrinhos Harvey Pekar. Não está claro, mas é pouco provável que esta passagem tenha sido vivida realmente por ele. De qualquer forma, ela contextualiza bem a obra de Pekar, interpretado pelo ator Paul Giamatti.

“Anti-Herói Americano” é uma espécie de “baseado em fatos reais” misturado com documentário e entremeado de pitadas de quadrinhos, formato que enriquece a narrativa sobre a vida de Harvey Pekar. Com histórias e personagens tão peculiares e intrigantes, roteiristas menos criativos que Robert Pulcini e Shari Springer Berman já dariam conta do recado. Melhor para nós, espectadores.

E quem é mesmo este tal de Harvey Pekar? Um fracassado, um embaraço social, um “nobody guy” que não tem sorte com mulheres, não concluiu a faculdade e que tem um emprego medíocre como arquivador de um hospital público em Cleveland, Ohio. Ok, está certo! Se ninguém é sempre vencedor, também não há quem seja 100% derrotado. A questão é como se vê o mundo e a postura que é mantida frente aos problemas e obstáculos da vida. Melancólico e pessimista, Harvey Pekar também é um fã de quadrinhos, leitor voraz de livros e fascinado por jazz.

São os quadrinhos e o jazz que proporcionarão uma vida –  digamos assim – um pouco menos medíocre a Pekar. A tentativa de aumentar sua coleção de discos de jazz irá fazer com que ele conheça em 1962 em Cleveland, durante uma busca por raridades, o quadrinista do underground americano Robert Crumb (representado por James Urbaniak no filme), ainda não famoso por seus “Fritz, the Cat” e “Mr. Natural”. Com muitos interesses em comum, os dois tornam-se bem próximos. Já os quadrinhos (que ele também colecionava) irão dar um sentido à sua vida, mesmo que ele só saiba desenhar bonecos tipo palitinho e que, por algum tempo, não consiga ter nenhuma idéia original e decente para um roteiro.

Afinal, para que Harvey Pekar precisaria de uma idéia original? A grande sacada é a descoberta de que “ordinary life is pretty complex stuff”. E aí voltamos para aquela cena que inicia o filme. Enquanto as comic books americanas estavam atoladas de super-heróis e de animais humanizados como Mickey e sua turma, Pekar – um homem solitário e introspectivo – volta-se para sua realidade e a descobre digna de tema central de uma história em quadrinho. Robert Crumb, para quem ele mostra seus primeiros roteiros, observa naquele momento que ele fez de si próprio um herói dos quadrinhos. E, topando desenhar aquelas histórias, lança Harvey Pekar às HQs do underground americano.

Agora um tanto conhecido nos Estados Unidos, o homem solitário “conquista” sua terceira esposa, uma leitora de quadrinhos chamada Joyce Brabner (no filme, Hope Davis) – mulher nenhum pouco convencional, diga-se de passagem. Reviravolta? Final feliz? Nada disso. A pequena fama não possibilitou a Pekar que ele vivesse apenas dos quadrinhos, como proporcionou a Crumb. O roteirista de Ohio aposentou-se como arquivista de hospital público. Antes disso, ainda teve que lutar durante um ano contra um câncer, o que lhe rendeu a premiada graphic novel “Our Cancer Year”, produzida em parceria com Brabner.

É impossível falar do filme “Anti-Herói Americano” e da obra de Pekar sem citar sua atitude impaciente e sua visão muitas vezes amarga sobre situações do cotidiano: a velha judia que exige descontos e conta moedinhas na fila do supermercado, fazendo com que a fila não ande, lhe dá nos nervos. Não dá pra deixar de destacar seus esquisitos colegas de trabalho, Sr. Boats (Earl Billings) e o auto-intitulado “nerd” Toby Radloff (Judah Friedlancer). Outra personagem que não pode ser esquecida é a sua filha adotiva (estranhamente adotada, como tudo o mais na vida de Pekar) Danielle (Madylin Sweeten).

A obra de Harvey Pekar é marcada por fatos e personagens de sua vida e é isso que a torna tão especial. Falar sobre um comum homem fracassado, imagem oposta ao modelo do “american way of life”, num momento em que os quadrinhos davam prioridade absoluta (e até hoje o mainstream dá prioridade) aos super-heróis, é uma forma simples de inovar e ser contestador.

Em tempo: “Anti-Herói Americano” é um filme live-action (ou seja, com atores reais, de carne e osso). Então é muito justo que você se pergunte: o que raios este filme está fazendo em uma seleção de animações? Bom, meus caros, a gente gosta muito desse filme e há cenas de interação live-action e animação (como a da velha judia). É verdade, existem outros filmes em que esta interação é bem maior, como “Uma cilada para Roger Habbit”, “Space Jam” e “Looney Tunes: Back in Action”. Mas o fato é que a gente gosta muito desse filme.

*Tássia Arouche escreveu este texto. Trata-se do programa que seria distribuído durante exibição de “Anti-herói americano”, no dia 14 de dezembro de 2010. Seria distribuído, se não fosse por aquela maldita “falha técnica”.


Harvey Pekar e David Letterman no Late Night

13/12/2010

Harvey Pekar ficou bastante conhecido nos Estados Unidos por suas, até frequentes, participações no Late Night, onde David Letterman costumava entrevistá-lo com o objetivo óbvio de transformar o loser Pekar em piada nacional. Talvez Letterman não quisesse intencionalmente humilhar Harvey Pekar, mas de fato ele fazia seus telespectadores rirem às custas do quadrinista/arquivista, esvaziando e diminuindo toda aquela mensagem contestadora de American Splendor.


Harvey Pekar (1939 – 2010)

09/12/2010

PEKAR: ESPLENDOR DO BANAL
Um dos autores de HQs mais importantes, morto recentemente, tinha um único personagem básico, ele mesmo

O mundo se despede de Harvey Pekar (1939-2010). Quem já cruzou com alguma edição de suas HQs (desenhadas por artistas diversos), sabe que se tratava de um artista único, um cronista da vida cotidiana no que ela tinha de mais banal. Muitos também o conheceram através do filme Anti-Herói Americano (de 2003), que mistura documentário e ficção, encenando algumas passagens de sua vida e os americanos lembram suas entrevistas na televisão. Como roteirista, Pekar era certamente pouco versátil. Ele tinha um personagem básico, ele mesmo. Mas justamente isso o distinguia dos demais criadores.

Como bem notou Gary Groth no texto introdutório do Comics Journal, Harvey não cresceu lendo quadrinhos, embora adorasse tiras antigas e alguns autores underground. Não estava interessado em escapismo super-heróico nem em fantasias psicodélicas. A matéria-prima de suas HQs era sua vida cotidiana, no que ela tinha de mais banal. E isso se transformava em algo interessante, graças a uma extraordinária capacidade de observação e um senso crítico agudo.

A primeira American Splendor foi publicada em 1976, com dinheiro do próprio Harvey. Era uma coleção de histórias curtas com vários artistas, e Harvey manteve esse padrão durante todos esses anos, com arte em preto e branco, mesmo que as edições mais recentes tenham saído pelo prestigioso selo Vertigo da DC Comics. Robert Crumb era amigo de Harvey desde muito antes e ilustrou várias dessas HQs. Aliás, essas parcerias foram compiladas pela editora Conrad no álbum Bob & Harv: dois anti-heróis americanos. Afora essa feliz contribuição, não há mais nada do roteirista disponível no mercado brasileiro.

Certamente existe algo único nos quadrinhos de Harvey Pekar, mesmo para quem já leu dezenas de quadrinistas autobiográficos. Embora seja um dos pioneiros a investir nesse gênero, ele certamente não foi o primeiro, já que Justin Green, art spiegelman e outros haviam se aventurado nesse campo, alguns anos antes. A grande novidade é que Pekar não exagera nenhum detalhe, faz questão de manter tudo no nível do banal. As experiências dele não tem nada de especial. Ele não era um bon vivant, não era um aventureiro, não era especialmente traumatizado, nem nada. Era um funcionário público. Vivia uma vida de homem comum, embora seu pensamento fosse um pouco diferente.

Mesmo no campo das imagens, ele não buscava enfeitar as HQs com metáforas visuais, recursos de cinema. Alguns de seus roteiros, entregues a artistas menos inspirados, podiam se tornar discursos entediantes de cabeças falantes.

Mas Pekar já trabalhou com feras como Crumb, Ty Templeton, Rick Geary, Joe Sacco, Jim Woodring, Gilbert Hernandez, Chester Brown, Hunt Hemerson, Eddie Campbell. Nas parcerias mais felizes, ele injetou um novo ânimo á arte seqüencial, mostrando que a vida mais banal pode ser muito interessante também, e dando aos leitores do futuro uma deliciosa fatia da vida na nossa época. Longa vida à obra de Harvey Pekar!

Texto escrito por Germano Rabello para a Revista O Grito!

Leia também:

Harvey Pekar, o esplendor do perdedor, do jornalista André Forastieri


Anti-herói americano: críticas

05/12/2010

Selecionamos algumas críticas sobre o filme Anti-herói americano. Confira!

Anti-Herói Americano

Mistura de documentário e ficção traduz com criatividade vida de quadrinista norte-americano para o cinema

Por: Rodrigo Carreiro (CineReporter)

“Anti-Herói Americano” (American Splendor, EUA, 2003) foi o grande vencedor do Festival de Sundance de 2003. Isso significa muita coisa. Para quem não conhece, Sundance é o evento cinematográfico que serve de vitrine para os melhores e mais arrojados trabalhos criados fora da fronteiras de Hollywood. “A Bruxa de Blair” e “Central do Brasil”, apenas para citar dois filmes conhecidos, surgiram para o mundo em Salt Lake City, onde o festival acontece.

O longa-metragem do casal Shari Springer Berman e Robert Pulcini enquadra-se à perfeição no tipo de película valorizada em Sundance, pois tece uma crítica brutal à sociedade contemporânea, enquanto nos revela o lado negro do sonho americano. Não que isso seja uma grande novidade, já que muitos filmes (até mesmo dos grandes estúdios, como “Beleza Americana”) o fazem. O maior atrativo de “Anti-Herói Americano” é a estética inovadora. Ela faz do filme uma experiência cinematográfica inesquecível.

A mistura cada vez mais radical entre ficção e realidade, a rigor, tem sido um dos grandes temas do cinema contemporâneo. É possível ver esse tema nos filmes mais díspares, com infinitas abordagens. Bons exemplos são “Matrix”, “ExistenZ”, “Dançando no Escuro”, “Spider – Desafie sua Mente” e “Preso na Escuridão”. A cinebiografia do roteirista de quadrinhos Harvey Pekar, contudo, é o primeiro documentário a investigar a fronteira sonho/real. E o faz de maneira radical, pioneira e bem-humorada.

Na realidade, “Anti-Herói Americano” não deve ser considerado, ao pé da letra, um documentário. O filme é uma grande salada de linguagens. O melhor exemplo desta afirmação está exatamente no personagem principal. Três diferentes Harvey Pekar dividem a tela: (1) o verdadeiro, que dá alguns depoimentos e faz a narração em off; (2) o ator Paul Giamatti, que interpreta o roteirista nas cenas ficcionais; e (3) a versão toscamente animada de Pekar, que aparece nas páginas da revista American Splendour, editada por ele.

Pausa para explicação: Harvey Pekar é um dos mais radicais autores de revistas em quadrinhos dos EUA. Arquivista de um hospital e solitário de carteirinha, Pekar começou a escrever para gibis em 1976, por causa da amizade que mantinha com Robert Crumb, gênio dos quadrinhos autorais (criador do gato Fritz e protagonista do excelente documentário “Crumb”, de Terry Zwigoff). A revista American Splendour funciona mais ou menos como um diário de Pekar, onde ele anota pedaços do cotidiano e tece observações pessimistas a respeito de tudo que lhe dá na telha. São textos crus, de uma franqueza desconcertante, como nos momentos em que Pekar protagoniza uma busca desesperada por uma namorada (qualquer uma).

Portanto, “Anti-Herói Americano” mistura animação, seqüências ficcionais e cenas documentais. E faz isso com muita criatividade, de modo que a estratégia jamais confunde o espectador. Melhor do que isso: funciona como um sopro de ar fresco ao enredo, imprimindo ao trabalho uma agilidade narrativa e um bom-humor que o carrancudo e ranzinza Pekar não possui.

Aliás, o filme evita brilhantemente que Harvey Pekar seja transmutado em uma piada ambulante, como fez o apresentador David Letterman, que levava o roteirista mensalmente ao programa para fazer o público embolar de rir. Essas seqüências, também mostradas em “Anti-herói Americano”, mostram a maneira clássica de a sociedade dos EUA aceitar figuras marginais como Pekar: ridicularizando-as, transformando-as em motivo de riso e, assim, retirando delas toda carga de crítica social que porventura possam ter. “Anti-herói Americano” denuncia essa estratégia, e só por isso já merece ser considerado um grande filme.

Mas a película tem muito mais. Tem, por exemplo, uma interpretação magnética do comediante Paul Giamatti, encarnando Pekar à perfeição. Testa franzida em eterno mau-humor, costas arqueadas como se carregasse o mundo nos ombros, Giamatti transpira fracasso, mas jamais inspira compaixão, o que é uma grande vitória. Já a atriz Hope Davis, intérprete da namorada de Pekar, Joyce Brabner, entrega uma performance energética e nunca menos do que espetacular. Esse é um filme de atores!

Há inúmeras seqüências que merecem destaque, mas talvez o melhor momento do filme seja exatamente o final, que exprime direitinho o ponto de vista de Harvey Pekar. Para a maior parte dos espectadores, pode parecer um final feliz, pelo menos um final digno para um sujeito tão marginal. É dessa forma, quase nostálgica, que as últimas imagens do longa-metragem são inicialmente apresentadas. Mas aí entra a narração em off do quadrinista, e ele raciocina, sobre tudo o que acabamos de ver, dentro da sua própria visão pessimista.

Essa estratégia inteligente dos cineastas transforma completamente o sentido das imagens. Shari Springer Berman e Robert Pulcini parecem dizer que tudo, em “Anti-Herói Americano”, é uma questão de ponto de vista – e o de Pekar transborda pessimismo. Filmes assim, em que ao espectador ainda é dada a possibilidade de refletir individualmente, são um grande triunfo.

Leia mais:

Anti-Herói Americano, de Springer Berman e Robert Pulcini – Contracampo

“Anti-Herói Americano” – Scream & Yell

Anti-Herói Americano – CinePlayers

Anti-Herói Americano – Confraria de Cinema

Anti-Herói Americano – Zero Zen

Anti-herói americano – Omelete


Filme de dezembro: Anti-herói americano

02/12/2010

O Terça tem cinema exibe em dezembro o filme, que não é uma animação (oi?), Anti-herói americano. É o último do ano!!
Dia: 14 de dezembro
Hora: 18h30
Local: miniauditório do Campus Curitiba da UTFPR

Confira ficha técnica e assista ao trailer.

Ficha técnica

Título original: American Splendor
Gênero
: Drama
Duração
: 100 min
Ano de lançamento
: 2003
País
: EUA
Estúdio
: Good Machine / HBO
Distribuidora
: Fine Line Features
Direção
: Robert Pulcini, Shari Springer Berman
Roteiro
: Robert Pulcini e Shari Springer Berman, baseado nas histórias em quadrinhos de Harvey Pekar e Joyce Brabner
Produção
: Ted Hope
Música
: Mark Suozzo
Fotografia
: Terry Stacey
Edição
: Robert Pulcini
Elenco
: Paul Giamatti (Harvey Pekar), Hope Davis (Joyce Braber), Earl Billings (Sr. Boats), James Urbaniak (Robert Crumb), Judah Friedlancer (Toby Radloff)

Sinopse
O balconista de hospital Harvey Pekar (Paul Giamatti) deixa cair no chão alguns arquivos de óbito e encontra a ficha de um homem que trabalhou a vida inteira como balconista em Cleveland ­ um emprego burocrático, exatamente como o dele. Esse episódio, combinado com o fato de ter visto o seu amigo Robert Crumb (James Urbaniak) se tornar uma pequena celebridade em São Francisco como cartunista, o inspiram a criar a sua própria revista em quadrinhos, chamada American Splendor. A revista, publicada em 1976 com grande sucesso, retratava com realismo o cotidiano do próprio Harvey, um amante compulsivo de jazz e livros.

Trailer (em inglês, sem legenda)



Kiriku e a feiticeira*

01/12/2010

Em 1998, o roteirista, cineasta e animador francês Michel Ocelot encantou o mundo (bom, pelo menos o mundo ligado no circuito alternativo de cinema) com seu longa de estréia, Kiriku e a Feiticeira. De traços simples, idéias ágeis e recheado de cultura africana, o desenho animado ganhou mais de uma dezena de indicações e prêmios em vários festivais mundiais, principalmente os de animação e os ligados à temática infantil.

A história de Kiriku e a Feiticeira é mítica. Trata-se do herói que, indiferente a seu tamanho e pouca experiência de vida, segue seus instintos e sábios conselhos de seu avô para salvar sua aldeia da perigosa Feiticeira Karabá, que havia subjugado todos os homens da aldeia e monopolizado suas riquezas, a água e o ouro.

Assim como Kiriku é um herói que foge do padrão por não contar com super poderes, o filme encanta sem se apoiar em padrões estéticos e signos dos mais familiares ao público ocidentalizado. A história se passa numa tribo africana, e Ocelot soube traduzir isso de diversas maneiras, na relação figura e fundo, luz e sombra, contrastes, cores, etc. Kiriku incorpora tudo isso no seu traço, de uma fascinante bidimensionalidade, e cores vibrantes, como são as cores vistas nas vestimentas e acessórios usados pelo povo africano. Assim também os personagens são desenhados com traços bem marcantes deste povo, não há nenhuma tentativa de “ocidentalização” de fisionomias e biotipos, o que com certeza enriquece muito o trabalho de Michel Ocelot.

Em seguida, vem a música, que está presente de uma maneira um tanto mais orgânica do que a que estamos acostumados a ver, principalmente em filmes de animação para crianças. A música faz parte do filme como faz parte do dia a dia do povo. Eles vão improvisando, batucando e reagindo à música para celebrar vitórias, como as tribos fazem há séculos. A música surge dos personagens. E para produzir a trilha sonora de Kiriku e a Feiticeira foram utilizado essencialmente instrumentos musicais africanos, como balafon, ritti, cora, xalam, tokho, sabaar e o belon.

A beleza de Kiriku e a Feiticeira está na simplicidade. É uma história simples que acompanha a ingênua simplicidade do traço de Ocelot. E é justamente neste despojamento naïf que reside o encanto do filme. Assim como Kiriku resiste à bruxa, Ocelot resiste à sedução da tecnologia 3D “estilo Pixar”. Ele é um contador de histórias à moda antiga, do tipo que ainda manda flores e que faz questão de cooptar como co-autor de seus filmes a sempre vívida imaginação de quem os assiste.

*Aline Scheffler escreveu este texto. Trata-se do programa distribuído durante exibição de “Kiriku e a feiticeira”, no dia 30 de novembro de 2010.


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