Waking Life*

27/10/2010

Waking Life incita discussões. Talvez seja pelas opções do diretor e roteirista Richard Linklater. Aqui o diretor norte-americano opta por utilizar a técnica da rotoscopia (desenhar sobre imagens pré-existentes). Essas imagens oscilantes, quase turvas, parecem já funcionar como um argumento, pois Linklater nos coloca exatamente no foco da narrativa, os SONHOS. Um foco desfocado, que permeia toda história, mantendo o espectador hora desperto, hora sonhando, imbuído pelas reflexões que mais parecem o livro da vida, uma espécie de tratado de todas as idéias ocidentais que tiveram destaque no grande roteiro da humanidade.

Além das imagens distorcidas, a trilha sonora é devidamente ajustada às ações dos personagens e sugere um clima lisérgico tão lugar comum para quem sonha! A personagem que amarra as cenas, literalmente falando, é um viajante, um Onironauta, termo para designar um explorador do mundo dos sonhos. Se tivéssemos que encaixar a estética deste filme em umas das gavetas da história da arte, jamais poderíamos colocá-lo na gaveta do cinema realista. Não, definitivamente Richard Linklater não está interessado que fiquemos iludidos pelo real. Isso pode soar contraditório para os mais céticos, eu sei. Mas o fato é que o grande paradoxo humano talvez seja um dos melhores argumentos para um roteiro cinematográfico. O que exatamente é real? Traçar um paralelo entre o mundo dos sonhos e o mundo da vida real não tem sido uma tarefa fácil para a humanidade.

Os neurofisiologistas se debruçam em cima de seus livros e provavelmente caem em sono REM (sigla que significa, em português, “movimento rápido dos olhos”. É uma fase em que o cérebro está ativo e o corpo ativamente paralisado). Sim, os neurofisiologistas ainda sonham entender este processo.

Em todas as épocas na história, tanto para os orientais quanto para o mundo ocidental, este tema serve como narrativa, seja como mensagens dos deuses egípcios ou para registrar que Maria mãe de Jesus estava grávida do Espírito Santo, mensagem enviada por um anjo através de um sonho.

Pulando algumas cenas importantes e outras meramente ilustrativas, chegamos ao ano de 1900, inicio do século XX, momento em que Sigmund Freud tenta alcançar manifestações do inconsciente através de sonhos. Em seu livro A interpretação dos Sonhos, ele lança questões importantes para a psicanálise, que não por acaso preenche rolos e rolos da história do ocidente.

A partir daí, é fácil perceber que todos os mecanismos psicológicos, sejam eles os desejos reprimidos ou a necessidade de remover alguns conteúdos da nossa memória ou para fixar aprendizados primitivos em nossas mentes, isso tudo faz parte da intenção cinematográfica de Waking Life. Um dos grandes méritos de Linklater e de sua equipe é justamente manipular o nosso papel enquanto platéia. Seja pela tensão intertextual que nos coloca em dúvida se o que presenciamos é um sonho do personagem ou cinema dentro do cinema, seja pelo próprio questionamento do quanto a narrativa cinematográfica pode ser manipuladora – e aí mora o grande barato do filme. O diretor, que também é responsável pelo roteiro, mostra o quanto não sabemos o que é e o que não é real, o que é e o que não é sonho, o que é e o que não é cinema. É por isso que aqui eu abandono essa barca… Entretanto antes devo-lhes chamar atenção de que, segundo Frederico Garcia Lorca, “sonhos não existem, tome cuidado, tome cuidado, tome cuidado”.

*Sol Sloboda escreveu este texto. Trata-se do programa distribuído durante exibição de “Waking Life”, no dia 26 de outubro de 2010.


Waking Life, de Richard Linklater*

07/10/2010

É sempre meio preocupante quando o atrativo principal de um filme parece vir de uma sacada técnica, algo que o torna “único”. Ficamos preocupados acima de tudo se ele escapa destas amarras de forma e consegue adequar seu conteúdo ao que mostra, ou seria melhor dizer, se o que ele quer dizer precisa daquela forma “nova”. No caso deste trabalho de Linklater o grande destaque seria tratar-se de uma animação de um não-animador. Funciona assim: Linklater filmou de fato um longa, com atores. Mas, não é isso que vemos na tela. Ele pegou esta história e levou para diferentes animadores, que desenharam em cima destas imagens, criando uma estranha combinação de realismo e artificialidade. Então a pergunta é: funciona?

Funciona sim, e principalmente porque dá para entender a motivação de Linklater. Seu filme é nada mais nada menos do que um grande sonho. Este é o tema do filme aliás: sonhos, vida, morte, cinema. E o formato narrativo, embora demore a se desvendar claramente, é o do sonho. Assistimos a um longo sonho de um personagem. Pois bem, sonhos são assim: as coisas parecem ser de verdade, possuem grande semelhança com a verdade, mas as coisas mais estranhas e ilógicas e contra as leis da física podem acontecer a qualquer momento. Para reproduzir esta sensação Linklater optou pelo toque de irrealidade da animação, mas com o fundo real, físico, dos atores. Funciona.

E quanto ao que é dito, o que este sonho mostra? Bem, aí o filme é um certo pulo no escuro. Porque trata-se de fato de um longo devaneio filosófico sobre a vida e a morte, o sentido delas, nossa percepção, o cinema como meio de expressão, em suma, uma infinidade de coisas. Em termos narrativos, personagens entram e saem de cena o tempo todo, falam de forma ininterrupta e caudalosa, teorizam e citam, discutem. Torna-se um filme complicado porque nos perguntamos qual o seu público. O mais tradicional do cinemão rejeitará seus pressupostos muito pouco narrativos, sua falação teórica interminável. Os mais cultos sentirão que estão sendo passados para trás por uma simplificação de uma série de noções filosóficas, usadas de uma forma bem popular.

Mas, este dilema é ilusório. Porque parte de dois preconceitos: o de que filosofia e questões mais sérias sobre a existência só comportam discussões embasadas de grandes teóricos e mestres, como se fossem uma coisa distante da vida do dia a dia, enclausurada na academia. O segundo é que o público só pode ser um ou outro: culto ou popularesco. Na verdade o possível público do filme pode ser comparado com fenômeno literário que foi O Mundo de Sofia, do dinamarquês Jostein Gaarner. Ou seja, um texto que trabalhava a filosofia para as massas, que tentava trazer a história da filosofia (assunto comumente considerado hermético) para as pessoas em geral. Desnecessário lembrar o sucesso que fez, inesperado. Waking Life caminha nesta linha. Quer ser sério sem ser engessado ou se achando extremamente importante por isso. Ganha pontos pela ousadia de não se deixar intimidar pelas patrulhas, e por conseguir injetar humor no seu questionamento. É certamente um filme diferente, que vai receber críticas de todos os lados, mas os que tenham menos preconceitos simplesmente poderão exercitar a diversão sem deixarem de ser sérios. Por quê temos sempre que optar por um ou outro?

Eduardo Valente

* Texto publicado no site da revista de cinema Contracampo.


Waking Life: por que ver*

03/10/2010

Waking Life – O Despertar da Vida (Waking Life, 2001, EUA). Dir: Richard Linklater. Elenco: Wiley Wiggins. 99 min.

Por que ver: Linklater resume sua filmografia em um filme cabeça sobre o sentido da vida e a relação entre sonhos e a vida desperta – tradução apropriada para seu título. O jovem diretor trabalha entre filmes sérios sobre a sensação de estar vivo (a dobradinha Antes do Amanhecer/Antes do Por-do-Sol, sua obra-prima até então) e comédias adolescentes sobre a mesma sensação (Escola do Rock, Jovens Loucos e Rebeldes) e já havia encontrado um equilíbrio entre as duas metades em seu primeiro filme, o cult Slacker (1991). Mas em Waking Life ele vai além e encontra um jovem preso em um sonho em que todas as pessoas conversam entre si ou com ele sobre o sentido da vida, as relações entre as pessoas e a natureza da realidade. Cada diálogo ou monólogo tem o traço de animadores diferentes, uma vez em que foi usada a técnica da rotoscopia – desenhar sobre imagens pré-existentes – como estética do filme. Os atores estiveram lá e foram filmados em mini-DV por Linklater, mas ganham cores, traços e deformações típicas de desenhos animados feitos em um software caseiro, o propositalmente tosco Rotoshop.

Fique atento: Além da sensação alucinógena causada pelo movimento e pelas cores do desenho, todo o texto do filme contribui para sua conclusão final – não é o que está acontecendo que importa, mas como. Não é o destino, mas a viagem.

*Texto de Alexandre Matias, publicado no blog Trabalho Sujo.


Animação de outubro: Waking Life

01/10/2010

O Terça tem cinema exibe em outubro a animação Waking Life, do diretor Richard Linklater.
Dia: 26 de outubro
Hora: 18h30
Local: miniauditório do Campus Curitiba da UTFPR

Confira ficha técnica e assista ao trailer.

Ficha técnica

Título original: Waking Life
Gênero
: Animação
Duração
: 97 min
Ano de lançamento
: 2001
País
: EUA
Estúdio
: Detour Film Production / Independent Film Channel / Line Research / Thousand Words
Distribuidora
: 20th Century Fox Film Corporation
Direção
: Richard Linklater
Roteiro
: Richard Linklater
Produção
: Tommy Pallotta, Jonah Smith, Anne Walker-McBay e Palmer West
Música
: Glover Gill
Fotografia
: Richard Linklater e Tommy Pallotta
Direção de arte
: Bob Sabiston
Edição
: Sandra Adair
Elenco
: Julie Delpy (Celine – voz), Ethan Hawke (Jesse – voz), Guy Forsyth (Guy Forsyth), Timothy “Speed” Levitch (Timothy “Speed” Levitch – voz), Louis Mackey (Louis Mackey – voz)

Sinopse
Após não conseguir acordar de um sonho, um jovem passa a encontrar pessoas da vida real em seu mundo imaginário, com quem tem longas conversas sobre os vários estados da consciência humana e discussões filosóficas e religiosas.


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