Dolls

22/04/2013

dolls2É de espantar a violência visual e a crueldade com que o diretor japonês, ex-comediante, Takeshi Kitano trata suas personagens. Mas não cabe aqui a comparação – que se faz habitual e erroneamente – com Quentin Tarantino. Enquanto o norte-americano se interessa pela banalidade de diálogos ostensivos, Kitano guarda no silêncio a sua ferramenta. Não se trata de nenhum exercício de sadismo ou de apologia da sangüinolência, mas de um olhar amargo sobre a vida, o amor e a cumplicidade.

Hana-bi – Fogos de artifício (1997) e Brother – A Máfia japonesa em Los Angeles (2000) são os dois exemplos mais representativos da técnica kitaniana, na qual a rigidez do código de honra dos assassinos da Yakuza é estendida a toda à sociedade reprimida do Japão. Sociedade que, desde o tempo dos samurais, dependente de regras sociais, incapaz de responder à tentação da rebeldia coletiva. No entanto, justamente o recente Dolls (2002), o único da trinca que não se concentra nas relações ferozes da Yakuza, o cineasta diz ser seu filme mais brutal – pela violência majoritariamente psicológica, não visual como nos trabalhos anteriores.

E as intenções de Kitano ficam evidentes logo na seqüência inicial. Uma apresentação de teatro de marionetes aquece o espectador e dá indícios da conduta do filme. Bonecos sem expressão transmitem agonia muda, e à coreografia das cordas do destino não cabe contorno. Logo são introduzidos os dois protagonistas. Matsumoto (Hidetoshi Nishijima) e Sawako (Miho Kanno) caminham presos por uma grossa corda vermelha. Não conversam, não se tocam, não param – apenas vagam num cenário idílico que lembra o lirismo de Akira Kurosawa (1910-1998).

Corta para o passado. Matsumoto, prestes a se casar com a filha de seu patrão, foge da igreja ao descobrir que Sawako, sua ex-namorada, acaba de tentar suicídio devido ao rompimento repentino. A moça não morreu, mas entrou num transe vegetativo. Matsumoto decide fugir com ela, cuidar de seu verdadeiro amor. Com o tempo, até se acostuma com a falta de comunicação. Todavia, para evitar que Sawako sofra algum acidente, se amarra à mulher. E começa assim a andança sem rumo.

Quando toda a situação já está assimilada pelo espectador, ao episódio do casal, somam-se mais dois, periféricos. No primeiro, um veterano da Yakuza decide procurar o grande amor da adolescência, abandonada sem justificativas em nome da carreira profissional. No segundo, o fã cego de uma estrela da música pop consegue se encontrar com sua musa, que se afastou do showbiz após um acidente que a deformou.

Às vezes, Kitano parece não confiar no próprio taco, e peca por uma certa reiteração constante de idéias já construídas anteriormente – como nas imagens do casal amarrado e na repetição da metáfora do teatro de bonecos. Mas o desfecho dos três casos – pancada que chega justamente no momento de maior ternura – comprova a afirmação de Kitano: Dolls é de uma brutalidade mais do que eficiente. Segundo o filme, lento mas feroz, todo comprometimento pressupõe a privação da vida. Ou seja, grosso modo, é melhor se conformar. Pois o amor tem muito mais de sacrifício do que de realização.

* Texto escrito por Marcelo Hessel no Omelete

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Dolls: Um filme que mistura bem as cores, personagens e seus sofrimentos. Takeshi Kitano é o grande nome do atual cinema japonês

18/04/2013

dollsTakeshi Kitano é, sem dúvidas, um dos maiores nomes do cinema japonês atual. Diretor do excelente e inaudito Zatoichi, que saiu dos cinemas brasileiros há pouco tempo, Kitano também foi responsável por Hana-bi – Fogos de Artifício, Brother, Tabu e vários outros filmes. Sua filmografia é extensa, e inclui desde modestas aparições até direção e roteiro, como foi o caso de Dolls, lançado em 2002 e recentemente distribuído em DVD no Brasil, pela California Filmes.

Embora adepto de um estilo mais moderno, algo que gire em torno de gangues e violência, Kitano deixa sua marca inconfundível em Dolls, ao abusar de seu estilo fotográfico e do modo como mescla cenas diversas numa tomada só. Não apenas isso, mas há também o modo como todo o enredo é conduzido, com alternância de narração psicológica e cronológica e um profissionalíssimo trabalho de edição.

O filme conta três histórias de drama e romance, iniciando com uma apresentação de fantoches bunraku, que servirá de suporte à história central. Nela, Matsumo (Hidetoshi Nishijima) e Sawako (Miho Kanno) pretendem se casar. Entretanto, Matsumoto recebe uma proposta para casar-se com a filha do presidente de sua empresa, o que a seu ver é muito mais vantajoso. Sem escrúpulos, ele larga a namorada, que, ao saber da decisão, tenta o suicídio. A tentativa é frustrada, e ela acaba por perder a memória. Ao saber disso, Matsumoto larga o casamento e passa a acompanhar a ex-namorada, para que ela não fuja e sofra algum acidente, uma vez que está absolutamente indefesa e alheia ao mundo. Ele amarra uma corda à sua cintura e à cintura dela, de modo que possa controlá-la. A partir daí, passam a andar pela cidade, sem rumo e sem qualquer perspectiva de felicidade.

Duas outras histórias entrelaçam-se com a primeira: uma sobre Haruna Yamaguchi, pop star interpretada por Kyoko Fukada (também presente em Ringu 2) e seu trágico acidente, que deforma seu rosto e a afasta dos fãs, exceto por um, apaixonado por ela; e outra sobre Hiro (Tatsuya Mihachi), chefe da máfia, que se reencontra com a namorada após tê-la deixado muito tempo atrás.

O grande destaque das atuações fica por conta de Miho Kanno. Suas falas são pouquíssimas, mas, mesmo assim, ela transmite ao espectador o vazio e a angústia que a cercam e a fazem tão dependente do ex-namorado. Ele, por sua vez, tem uma atuação pior, mas que tende a melhorar com o decorrer do enredo. Lá pelos últimos momentos do filme o espectador está completamente identificado e absorto pela atuação de ambos. Embora os outros atores sigam uma linha mediana de interpretação, uma vez que seu espaço na película é reduzido e partilhado com os outros, seus sofrimentos, suas tristezas e suas desilusões são perfeitamente visíveis e conseguem emocionar.

Dolls chama a atenção por apresentar um formato diferente do usual, graças ao seu impecável trabalho de edição. A primeira parte do filme apresenta uma narração claramente psicológica, sustentada por flashbacks muito bem encaixados. Depois, a narração é predominantemente cronológica, mas o trabalho de edição permanece formidável.

Usando as câmeras de modo inteligente, Dolls captura e transmite ao espectador uma poesia visual que reúne cores e formas, sem transgredir a harmonia, numa fotografia invejável. A música de Joe Hisashi (que também compôs a trilha de A Viagem de Chihiro) serve de sustentáculo aos elementos da paisagem, dando rumo e sentido ao espetáculo visual que transborda pelas câmeras. O vasto leque de cores, o figurino minucioso e os cenários belos e grandiosos impõem à película sua magnitude e seu tom dramático, em cenas que, muitas vezes, não passam de metáforas visuais.

Com um enredo sem pressa, mas que exige atenção, Dolls deixa o espectador pensando até mesmo depois do rolar dos créditos. Os diálogos, poucos, desenvolvem a história de maneira admirável, e o silêncio perturbador e muito expressivo que ronda as personagens centrais é suficiente para emocionar e fazer refletir. O conjunto da obra demonstra por que Takeshi Kitano é o grande nome do atual cinema japonês – e, claro, a fotografia estonteante é um convite à reprise.

* Texto escrito por Flávio Augusto no Cineplayers


O Gabinete do Dr. Caligari

10/04/2013

gabineteA proposta desta ano é discutir o lugar onde o filme acontece. Em abril, o filme exibido é ‘O Gabinete do Dr. Caligari’, uma produção do ano de 1919 que inaugura o gênero Expressionista com todos os seus elementos. Parte da proposta do cenário foi sugada do Teatro do final do século XIX, como os cenários pictóricos que eram as telas pintadas dispostas no fundo do palco para ilustrar as cenas, desembocam neste filme com seus telhados Góticos e Cubistas, ruas oblíquas e estreitas se entrecortando em ângulos que nos trazem frequentemente a metáfora da deformação do olhar, reforçando assim o desespero em que a multifacetada alma alemã se encontrava no pós-guerra. O ‘Expressionismo Alemão’ proporciona aos olhos a sensação do terror que este período deixou registrado em várias manifestações artísticas. A perspectiva distorcida, as sensações de uma Alemanha destruída pela guerra.

Um dos traços impressionantes deste filme é a consciente fuga dos lugares verticais e horizontais, com o intuito de nos levar a fugir das soluções simples cotidianas, nos deixando a impressão de que participamos de um sonho previamente combinado, porque nada é escondido ou tem o propósito de não ser verossímil.

Com óbvias diferenças do último filme apresentado pelo clube, ‘Sin City – A Cidade do Pecado’, ‘O Gabinete do Dr. Caligari’ não utiliza filtros em preto e branco, e os cenários reproduzidos aqui não receberam nem 1% de tratamento digital. O filme, originalmente produzido em preto e branco, recebe tratamento em laboratório através de uma técnica de ‘viragem’ obtendo efeitos na cor, que aparecem em tom sombrio tanto no cenário quanto na composição dos personagens, isso tudo para reforçar a dramaticidade das sequências.

Podemos observar neste longa-metragem, dirigido por Robert Wiene, que assim como o cenário, as atuações dos personagens são feitas de forma excessivamente dramática, teatral, às vezes paralisada. A maquiagem usada coloca em evidência os olhos e a boca dos atores. Todos esses componente fílmicos ajudam na abstração do real para a qual é levado o espectador do filme, característica essencial do expressionismo alemão.

Quando parei para escrever este texto, me dei conta de que vamos assistir a um filme produzido no início do século passado com todas as suas estranhezas, mas ainda assim estaremos reunidos em uma sala que irá projetar este filme em tela grande, permaneceremos unidos pelo mesmo motivo que há mais de um século as pessoas saíam de casa, no mesmo ato ritualístico, ato este que se sobrepõe a todos os outros motivos que nos trouxeram a ver este filme, e por isso e todo o resto as ‘estranhezas’ se anulam, o ritual ‘cinema’ nos une mais uma vez.

* Texto escrito por Sol Sloboda e distribuído como programa na exibição de “O Gabinete do Dr. Caligari”, em 09/04/2013.


Nesta terça tem O Gabinete do Dr. Caligari

08/04/2013

gabinete4Em abril, o projeto Terça Tem Cinema apresenta o filme O Gabinete do Dr. Caligari.

Dia: 9 de abril
Hora: 18h30
Local: Miniauditório do Campus Curitiba da UTFPR

Confira a ficha técnica:

Título original: Des Cabinet Des Dr. Caligari
Gênero: Suspense
Duração: 78 minutos
Ano de lançamento: 1920
País: Alemanha
Direção: Robert Wiene
Elenco: Werner Krauss, Conrad Veidt, Friedrich Feher, Lil Dagover, Hans Heinrich von Twardowski, Rudolf Lettinger.

Sinopse: O misterioso hipnotizador Dr. Caligari chega a um pequeno vilarejo da fronteira holandesa acompanhado do sonâmbulo Cesare. Após uma morte misteriosa, Francis passará a espionar Cesare, com a ajuda da polícia, e precisará adentrar no gabinete de Caligari para desvendar o que está acontecendo.


Curiosidades sobre O Gabinete do Dr. Caligari

01/04/2013

gabinete2* O produtor Erich Pommer queria que Fritz Lang fosse o diretor do filme. Lang se interessou, mas decidiu trabalhar em outro projeto, “Die Spinnen”.

* O roteirista Hans Janowitz escreveu o papel feminino principal para sua namorada, Gilda Langer, mas foi Lil Dagover quem conseguiu o papel.

* Os cenários foram feitos em papel, com sombras pintadas nas paredes.

* O longa é considerado por muitos como o primeiro filme de terror já feito

* Antes do lançamento do filme, pôsteres com a frase “Você precisa se tornar Caligari!” foram espalhados por Berlim, sem a menor pista de que estavam promovendo um filme que ainda iria estrear.

* Hans Janowitz afirma que teve a ideia para o filme quando estava em um carnaval e viu um estranho homem se esgueirando pelas sombras. No dia seguinte, descobriu que uma garota havia sido brutalmente assassinada lá. Ele foi ao funeral, e viu o mesmo homem estranho por perto. Não há prova de que ele era o assassino, mas a ideia surgiu para o filme.

* Carl Mayer e Hans Janowitz escreveram o roteiro em seis semanas, entre fevereiro e março de 1999, vendendo para Erich Pommer por 200 dólares.

* Os cenários foram construídos por menos de 800 dólares, o os atores receberam menos de 30 dólares por dia de gravação.

* O filme ficou em cartaz num cinema em Paris por sete anos.

Fonte: Imdb


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