Ele não está lá?*

19/12/2011

A princípio, o que eu sabia sobre I’m not there, do diretor Todd Haynes de 2007, é que seria um filme sobre o cantor Bob Dylan. E sabia lendo as críticas, ouvindo a mídia e os amigos. Claro, nunca questionei que não seria também.
O início do filme mostra uma câmera subjetiva que sai do foco de um cigarro, nos conduz por um corredor, sobe uma escada enquanto ouvimos muitas vozes que clamam por alguém. Tudo isso nos leva a um suposto palco que ao ser atingido se perde em meio a fumaça e à luz. Logo se conclui: é um filme sobre o cantor mesmo!
Então, na sequencia, Haynes apresenta seis personagens em tempos e propostas variadas. Nenhuma tem ligação com a outra, cada qual vive seu drama em histórias e tempos variados dentro do mesmo filme.
Na narrativa, os pulos no tempo são tão normais quanto a existência destas variadas pessoas dentro das diferentes épocas mostradas, vivendo também dramas múltiplos. É preciso aceitar isso logo no início para que você consiga aproveitar ao máximo as emoções causadas pela poética película.
Ainda aqui acredito que é sobre o cantor; mas quem é essa pessoa que tem o caráter tão extraordinário que pode ser subdividido em tantas outras pessoas de idades, aparências e locais diferentes? Como uma pessoa pode ter estado em tantos lugares, ter convivido com tantas pessoas e ter tantas histórias para contar? E como tantas pessoas podem ter histórias para contar sobre esse indivíduo? Seria um lunático, um esquizofrênico, um ator, um escritor? Que pessoa consegue criar uma ilusão de se ter vivido tantas vidas em apenas uma? E, seria mesmo uma vida? E, seria mesmo uma única pessoa ou um mito, uma lenda passada de geração em geração? Existe alguma verdade nisso tudo? (Continuo na dúvida. Não em dúvida sobre a qualidade do filme, mas sobre o que não está no filme).
A única certeza do que vamos ver em I’m not there é a de que ao adentrá-lo iremos conhecer várias histórias. São sobre uma pessoa? Não sei. Se são sobre Bob Dylan? Não sei. O diretor diz que sim. Se são verdade ou não… quem pode confirmar?
É difícil falar sobre uma pessoa que não conhecemos (e eu não conheço a história do Bob Dylan). Fomos apresentados por meio da epifania um terceiro. Terceiro que também não conheceu pessoalmente o cantor, contudo teve sua obra autorizada pelo próprio. Haynes nos conta as lendas sobre uma lenda, segundo sua ótica.
Vale lembrar que estes personagens tem vários nomes, mas nunca o de Dylan. Talvez por isso ele não esteja lá. Será? “Afinal de contas uma canção (ou uma história) é uma coisa que anda por si só”.

*Graciele de Mello escreveu este texto. Trata-se do programa distribuído durante exibição de “Não estou lá”, no dia 13 de dezembro de 2011.

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A trilha de “Não Estou Lá” e os não-retratos de Bob Dylan

12/12/2011
Bob Dylan é um dos mais emblemáticos artistas vivos. Seus mútiplos talentos, facetas, preocupações, trabalhos, amores e fases (sobretudo fases) jamais seriam retratados com um filme linear. Uma simples biografia. Daí que Todd Raynes resolveu mostrar tudo sobre Bob Dylan com um filme que não tem absolutamente nada de Bob Dylan.Foram chamados, então, Marcus Carl Franklin, Ben Whishaw, Heath Ledger, Christian Bale, Richard Gere e Cate Blanchett. Cada um deles interpretou uma faceta ou um período da vida de Dylan. O filme é uma colcha de retalhos ligada pela música.

Mas ele também não estava em sua música.

Por isso Raynes se preocupou em chamar vários músicos para interpretarem diferentes versões das músicas de Dylan. Tem de tudo. Músicas mais conhecidas, menos conhecidas. Curiosamente, só não tem os velhos clichês, como “Like a Rolling Stone”, e “Blowin in the Wind”, suas duas músicas mais populares.

As formações são as mais diversas, mas as músicas são, em geral, executadas pelo The Million Dollar Basher, como nessa impecável versão de “Ballad of a Thin Man”, cantada por Stephen Malkmus:

Ou, pelo Calexico, com voz de Jim James, como em “Going to Acapulco”, que acaba fazendo uma bela participação no filme, nessa cena:

A trilha não é toda indie, como poderiam acusar alguns desavisados ao verem os nomes de Calexico e compania. O próprio disco abre com “All Along the Watchtower”, velha conhecida dos fãs de Jimi Hendrix, mas cantada aqui por Eddie Vedder, líder do Pearl Jam, com a capacidade vocal que lhe é peculiar.

São, ao todo, 32 músicas em um disco duplo, caso se interesse pela trilha. A última, quase como uma piadinha do diretor é “I’m not There”, executada pelo próprio Dylan, com a sua lendária “The Band”. Infelizmente, o vídeo com boa qualidade não pode ser incorporado pelo youtube, mas você pode ouvir clicando aqui.

Agora você fica com algumas das boas canções do filme:

*Post originalmente publicado no Portal POP.

Não Estou Lá – A inspirada cinebiografia fictícia de Bob Dylan

04/12/2011

I’m not there  (2007), do diretor Todd Haynes, não é uma biografia sobre o compositor e cantor Bob Dylan. Não no formato convencional, pelo menos. Haynes baseia-se nas lendas por trás do mito para contar, reescrever e criticar os fatos marcantes da vida de Dylan. Terá o artista sido um poeta, um pastor ou a voz do trabalhador norte-americano? Seus fãs e diversos especialistas na cultura pop dirão que sim. Ao mesmo tempo, o próprio Dylan nega todos esses atributos. Talvez por isso tenha permitido que suas músicas fossem utilizadas no filme. Ao construir um painel contraditório amparado em fatos e lendas, Haynes joga mais lenha na fogueira. Com certeza Dylan deve estar se divertindo com tudo isso.

Haynes escalou seis diferentes atores para viver várias passagens marcantes da vida de Dylan. Uma escolha acertada, já que o polêmico compositor interpretou ele mesmo diversas facetas de sua personalidade conturbada durante décadas. Haynes já tinha feito isso em Velvet Goldmine, em que combinou as biografias de artistas como David Bowie, Iggy Pop, Lou Reed, Brian Ferry, entre outros para explicar o movimento glam. No caso de Dylan os escolhidos foram os atores Marcus Carl FranklinBen WhishawChristian BaleHeath LedgerCate Blanchett e Richard Gere.

Marcus Carl Franklin faz um personagem que se autodenomina Woody Guthrie, um guitarrista prodígio de 11 anos. Nessa representação percebemos o inicio da carreira de Dylan, em que o cantor era devoto de Guthrie, um prolífico compositor folk. Dylan conheceu Guthrie já adoentado e internado em um Hospital. Isso é retratado no filme na personalidade no jovem guitarrista. Nessa época Dylan modificou seu nome original, Robert Allen Zimmerman, algumas vezes, até chegar à versão final. Em 1959 ele usou Elston Gunn em duas apresentações com o cantor Bobby Vee. No filme de Todd Haynes ele usa uma cena interessante com o guitarrista de 11 anos para pontuar essa mudança. O garoto recebe o conselho de“viver seu próprio tempo, cantar sobre sua época”.

Daí surge Christian Bale no papel de Jack Rollins, que nitidamente representa os anos em que Dylan tornou-se um defensor dos direitos civis e foi catalogado como um cantor de músicas de protesto. Durante esse período juntou-se a cantora Joan Baez em diversas apresentações. Inclusive na “Marcha para Washington”, em que Martin Luther King Jr. fez o mitológico discurso “Eu tenho um sonho”. Baez é representada por Julianne Moore na trama.

Bale, além de interpretar a fase que o cantor escreveu diversos clássicos que inspiraram uma geração, também protagoniza a célebre passagem em que Dylan recebeu o prêmio Tom Painedo National Emergency Civil Liberties Committe na época do assassinato do presidente John F. Kennedy. Sentindo-se manipulado, Dylan agradeceu bêbado com um discurso inflamado sobre as coincidências entre sua personalidade e a de Lee Harvey Oswald, assassino de Kennedy.

Ao mesmo tempo, temos cenas intercaladas de Ben Whishaw representando o lado poético de Dylan. As imagens são capturadas em close-up e Haynes aproveita as origens teatrais de Whishaw para criar um diálogo franco com o público. São cenas que provocam uma reflexão sobre os pensamentos de Dylan.

Depois temos a entrada de Heath Ledger interpretando o ator Robbie Clarke, que está protagonizando uma espécie de biografia do personagem Jack Rollins. Ele representa os flertes de Dylan com o cinema em filmes e documentários que deram errado nas bilheterias pelas suas propostas visivelmente artísticas. Há referências a Renaldo and Clara, filme que Bob Dylan dirigiu em 1978, especialmente na parte que trata do relacionamento de Renaldo, sua esposa Sara e a sua companheira Clara. Ao mesmo tempo Ledger protagoniza o lado caseiro de Dylan, sua vontade de ter uma família, através do dia-a-dia do compositor longe dos shows. Sua pouca vocação em pilotar motos também é encenada, o que levou a um acidente na vida real.

Cate Blanchett interpreta o rompimento de Dylan com a música folk em detrimento do rock, com uma guitarra elétrica acompanhada de uma banda. Sua personagem se chama Jude Quinn. Percebemos nessa parte várias cenas que remetem ao ótimo documentário No Direction Home: Bob Dylan, do cineasta Martin Scorsese, como também Dont Look Back, do diretor D.A. Pennebaker, que documenta a turnê de Dylan na Inglaterra, em 1965. Temos seqüências das vaias da platéia no Newport Folk Festival, por causa das mudanças do estilo de Dylan tocar suas canções. Isso culminou no conflito com o público no Royal Albert Hall em que o compositor foi chamado de “Judas” pelos espectadores enraivecidos, em 1966. Na verdade esse episódio aconteceu no Manchester’s Free Trade Hall.

Durante esse período temos o encontro de Dylan com os Beatles e com o poeta beat Allen Ginsberg. São cenas antológicas e divertidas. Todos sabem do episódio de Dylan com os Beatles. Aqui referenciado com um seqüência típica do filme A Hard Day’s Night. No mesmo segmento surge o personagem Keenan Jones (Bruce Greenwood), um repórter da BBC incumbido de desmistificar o homem por trás do mito. As seqüências com as discussões dos dois retratam a relação conturbada entre Dylan e a mídia. Greenwood também será Pat Garrett, outro personagem que irá confrontar Billy, mais um alter-ego de Dylan, interpretado por Richard Gere.

Nesse segmento percebe-se uma alusão ao filme Pat Garrett & Billy the Kid, do cineasta Sam Peckinpah. Dylan fez o papel de Alias, um membro da gangue de Billy. Era um personagem coadjuvante. O filme foi um fracasso nas bilheterias, mas emplacou a canção “Knockin’ On Heaven’s Door”. Esse segmento com Gere também remete a Hearts of Fire, outro filme em que Dylan participou. Na trama, ele faz um astro do rock aposentado que se tornou um fazendeiro de galinhas chamado de Billy Parker. Haynes mostra assim o lado “ermitão” de Bob Dylan, um artista que ficou afastado da mídia por algum tempo para apreciar a vida pacata no campo, longe dos holofotes. A seqüência envolvendo o trem e Billy representa o ressurgimento de Dylan anos depois.

Christian Bale ainda retorna como o mesmo Jack Rollins, representando o momento em que Dylan converteu-se à religião católica. Na época ele lançou dois álbuns de música gospel. O disco Gotta Serve Somebody reservou a Dylan o Grammy por Melhor Vocal Masculino em 1979, provando a versatilidade do cantor.

Todos os segmentos têm bons desempenhos. Tecnicamente utilizam diversos recursos da linguagem cinematográfica para causar reflexão e debate. Slides, preto e branco, cor, granulações e edição ritmada de acordo com a dramaturgia encenada na telona, entre outros diversos expedientes. O diretor de fotografia Edward Lachman realiza um trabalho digno de premiação.

Mas o segmento mais atraente para com o público é o que traz Cate Blanchett personificando Dylan, que resultou no premio de melhor atriz do Festival de Veneza 2007. Os diálogos ácidos e a má vontade para com o sucesso, a mídia e público têm altas doses de humor. Isso facilita o diálogo com o espectador que não é fã de Dylan. A performance dela chama mais atenção do que os demais alter-egos de Dylan, apesar de todos estarem muito bem. Do outro lado, o segmento menos encantador é o de Richard Gere. Não por causa do ator, mas pela abordagem surrealista que deve incomodar os mais tradicionalistas.

Essa e as demais escolhas estéticas de Haynes têm como objetivo facilitar a apresentação das várias faces de Dylan. Assim ele teve também a liberdade necessária para colocar suas próprias idéias interpretativas sobre o compositor. Até por que seria pretensão achar que podemos compreender um indivíduo simplesmente pelos fatos marcantes de sua vida. O objetivo aqui é tentar elucidar o que estava acontecendo no interior do artista, uma eterna contradição de emoções e motivações, durante essas passagens. Mas descobrir quem foi realmente Bob Dylan nos seus anos de juventude continuará sendo um mistério – algo que Haynes evidencia com um longo solo de gaita de “Mr. Tambourine Man”. A única certeza é que, independente de sua importância para a contracultura ou os movimentos dos direitos civis, o legado de Bob Dylan reside em sua música.

Texto escrito por Mario “Fanaticc” Abbade, na página do Omelete.Imagem


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