Poéticas em expansão, em A última tempestade de Peter Greenaway

25/08/2009

Uma gota d’água dimana na tela; páginas de livros sucedem-se dando lugar a outras páginas; papéis voam de diversos pontos para múltiplas direções. Estas imagens contidas no filme A última tempestade, de Peter Greenaway, são três fragmentos de movimento, que relacionados ao acaso, podem indicar uma possibilidade de percurso, sem mapa, pelo labirinto arquitetônico do filme.

Vou tentar visualizar, através do movimento de cada uma destas três imagens, o desenho de uma possível leitura. Aqui, o espectador-leitor é considerado como aquele que faz parte do provável desenho, da possível forma mutante e mutável, que surgirá da interação entre o observador e a obra observada. Neste caso, o espectador não é aquele que assiste e espera, é um decifrador e prestidigitador, decifra participando da construção da poética. É a partir do diálogo e interação com as formas sugeridas no filme, que surgirão outras formas.

Nesta aberrante leitura, uma maneira de ver através de um palimpsesto, uma tentativa de enxergar a forma do todo, através de partes, como se no fragmento do plano estivesse contido o grande movimento, em consonância com as estruturas mentais do decifrador.

O filme é tratado aqui como um desenho arquitetônico, um labirinto em meandros, que se organiza com a participação do outro. “Nós e labirinto tornam -se a imagem estrutural do próprio saber: um saber aberto, interdisciplinar, em movimento, sempre sujeito ao risco da perda de orientação”. (1)

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Os fantásticos livros de Próspero

22/08/2009

Maria Esther Maciel deve ser uma mulher legal. Legal também é o pessoal que faz a Zunái – revista de Poesia e Debates. É que ela, a Maria Esther, traduziu a descrição que Peter Greenaway fez, no roteiro de “A Última Tempestade”, dos 24 livros de Próspero e a revista, a Zunái, publicou (aqui!). Olhem só:

1. O Livro da Água

Este é um livro de capa impermeável, que perdeu sua cor pelo demasiado contato com a água. É repleto de desenhos investigativos e textos exploratórios escritos em diferentes espessuras de papel. Há desenhos de todas as associações aquáticas concebíveis: mares, tempestades, chuvas, neve, nuvens, lagos, cachoeiras, córregos, canais, moinhos d’água, naufrágios, enchentes e lágrimas. À medida que as páginas são viradas, os elementos aquáticos se animam continuamente. Há ondas turbulentas e tempestades oblíquas. Rios e cataratas fluem e borbulham. Planos de maquinaria hidráulica e mapas meteorológicos tremulam com setas, símbolos e diagramas agitados. Os desenhos são todos feitos à mão. Talvez seja essa a coleção perdida de desenhos de Da Vinci, encadernada em livro pelo Rei da França em Amboise e comprada pelos duques milaneses para dar a Próspero como presente de casamento.

2. Um Livro de Espelhos

Encadernado em tecido de ouro e bastante pesado, este livro tem umas oitenta páginas espelhadas e brilhantes: algumas foscas, outras translúcidas, algumas manufaturadas com papéis prateados, outras revestidas de tinta ou cobertas por um filme de mercúrio que pode rolar para fora da página se não for tratado com cautela. Alguns espelhos simplesmente refletem o leitor, alguns refletem o leitor tal como ele era há três minutos, alguns refletem o leitor tal como ele será em um ano, como seria se fosse uma criança, uma mulher, um monstro, uma idéia, um texto ou um anjo. Um espelho mente constantemente; outro espelho vê o mundo de frente para trás; outro, de cima para baixo. Um espelho retém seus reflexos como se fossem momentos congelados infinitamente relembrados. Outro simplesmente reflete um outro espelho através da página. Há dez espelhos cujos propósitos Próspero ainda precisa definir.

3. Um Livro de Mitologias

Este é um livro grande. Em algumas ocasiões, Próspero o descreveu como tendo quatro metros de largura e três metros de altura. É encadernado em um pano amarelo brilhante que, quando polido, reluz como latão. Trata-se de um compêndio, em texto e ilustração, de mitologias com todas suas variantes e versões alternativas; ciclo após ciclo de estórias entrecruzadas, que tratam de deuses e homens de todo o mundo conhecido – do Norte gelado aos desertos da África -, com leituras explicativas e interpretações simbólicas. De reconhecida autoridade, suas informações são as mais ricas que há no Leste Mediterrâneo, na Grécia e na Itália, em Israel, em Atenas e Roma, Belém e Jerusalém, onde são suplementadas com genealogias naturais e não-naturais. Para o olhar moderno, o livro é uma combinação das Metamorfoses de Ovídio, O ramo de ouro de Frazer e O livro dos mártires de Foxe. Cada estória ou anedota tem uma ilustração. Usando esse livro como um glossário, Próspero pode reunir, se assim desejar, todos os deuses e homens que alcançaram fama ou infâmia através da água ou através do fogo, através do engano, em associação com cavalos ou árvores ou porcos ou cisnes ou espelhos, orgulho, inveja ou gafanhotos.

4. Uma Cartilha das Pequenas Estrelas

Este é um guia de navegação pequeno, escuro e com capa de couro. É um livro repleto de mapas dos céus da noite, os quais, ao se desdobrarem, caem para fora da página, desmentindo o tamanho modesto do livro. Por retratar a imagem do céu refletida nos mares do mundo quando estes repousam, está cheio de manchas que indicam onde as massas de terra do globo interromperam o espelho oceânico. Isso, para Próspero, foi de grande utilidade, pois dirigindo sua nau avariada para uma dessas pequenas falhas no mar de estrelas, ele encontrou sua ilha. Quando abertas, as páginas da cartilha cintilam com planetas viajantes, meteoros lampejantes e cometas giratórios. Os céus negros pulsam com números vermelhos. Novas constelações se enfeixam repetidamente através de ágeis linhas pontilhadas.

5. Um Atlas Pertencente a Orfeu

Revestido de uma capa de lata verde-laqueada, com superfície gasta e queimada, este atlas é dividido em duas seções. A primeira é repleta de grandes mapas de viagem e manuais de música do mundo clássico. A segunda, de mapas do inferno. O livro foi usado quando Orfeu viajou ao mundo subterrâneo em busca de Eurídice. Daí que os mapas se encontrem chamuscados e tostados pelo fogo do inferno e marcados pelas mordidas de Cérbero. Quando o atlas é aberto, os mapas borbulham em piche. Avalanches de cascalhos frouxos e de areia fundida caem de suas páginas e crestam o chão da biblioteca.

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Os 24 livros de Próspero, por Peter Greenaway

20/08/2009

Em ” A Última Tempestade”, Peter Greenaway provê Próspero, personagem central da peça “A Tempestade” de W. Shakespeare, com 24 livros no exílio. Na tradução da peça de Shakespeare que li (de Carlos Alberto Nunes), no entanto, não lembro de haver um número estipulado: “(…) Assim, por pura gentileza, sabendo quanto apêgo eu tinha aos livros, [Gonzalo] trouxe-me de minha biblioteca volumes que eu prezava mais do que meu ducado”, conta Próspero a sua filha Miranda.

Mas essa não é a questão.

Fazendo uma pesquisa na internet, achei um site (em inglês) que relaciona a peça completa de Shakespeare com a transcrição feita por Greenaway. Trabalho de doido, mas bem legal pra gente dar uma sacada. Lá tem a relação dos 24 livros de Próspero, mostrados no filme de Greenaway. Segue a lista (em inglês):

A Book of Water
Book of Mirrors
A Memoria Technica called Architecture and Other Music
An Alphabetical Inventory of the Dead
The Book of Colours
A Harsh Book of Geometry
An Atlas Belonging to Orpheus
Vesalius’s Loft ‘Anatomie of Birth’
A Primer of the Small Stars
A Book of Universal Cosmologies
Book of the Earth
End-Plants
The Book of Love
A Bestiary of Past, Present and Future Animals
A Book of Utopias
A Book of Travellers Tales
Love of Ruins
The Autobiographies of Semiramis and Parsiphae
The Ninety-Two Conceits of the Minotaur
A Book of Motion
A Book of Mythologies
A Book of Games
A Book of Thirty-Five Plays
A Play called ‘The Tempest’


“O cinema morreu”, diz o cineasta Peter Greenaway

12/08/2009

Peter Greenaway

Para o multiartista britânico Peter Greenaway, o cinema morreu — e já faz algum tempo. Segundo ele, o que Hollywood faz hoje é produzir em série histórias previsíveis. O cinema realmente importante para o público deixou de existir. “Os fimes narrativos já não despertam interesse”, diz Greenaway. “Na Holanda, onde eu moro, as pessoas vão ao cinema uma vez a cada dois anos, em média.”

Greenaway, ironicamente, está no Brasil para, entre outras coisas, viabilizar a produção de um filme que ele pretende rodar em São Paulo. Além disso, veio acertar detalhes da performance que vai comandar como VJ no festival de arte eletrônica Videobrasil, em setembro. Será um desdobramento de um projeto que o mobiliza há mais de dez anos e para o qual ele realizou, entre 2002 e 2003, um filme de sete horas de duração. Tudo gira em torno de 92 malas cheias de vestígios de uma história que atravessa décadas, que estarão em exposição durante o festival. As malas teriam sido deixadas por um certo Tulse Luper, escritor desaparecido em 1989.

O personagem vem sendo tratado como um mistério, mas Greenaway não faz segredo sobre sua identidade. “Sou eu”, diz ele. “Eu nasci em 1942, três anos antes da bomba de Hiroshima. Tenho mais ou menos a idade de John Lennon e Mick Jagger. Aquele foi o início de uma época que terminou em 1989, com a queda do Muro de Berlim.” Greenaway descreve esse período como uma fase de grande otimismo, principalmente em relação à tecnologia. É uma época que ele também chama de “era do urânio”, em referência ao papel-chave exercido pela energia nuclear ao longo desse tempo.

Greenaway localiza o início da morte do cinema um pouco antes do encerramento dessa fase: o lançamento, em 1983, do controle remoto sem fio que operava tanto a televisão quanto o videocassete. O zapping trouxe para os lares a possibilidade de interação e a passividade do cinema caiu em desgraça. “Não há mais por que juntar um monte de gente numa sala escura em que só há um lugar bom para ver o filme, a poltrona equidistante das caixas de som e que permite ver a tela bem no centro”, diz Greenaway, que vem operando com vídeo de alta definição há vários anos. “Já existe tecnologia para envolver o espectador em som e imagem por todos os lados e fazer dele o sujeito da ação.”

O ambiente virtual e tridimensional do site Second Life é a prova de que o futuro já chegou e que as crianças e jovens de hoje em dia já vivem numa época pós-cinematográfica. Greenaway prentende explorar essas possibilidades em sua performance no Videobrasil, na qual vai mixar, editar e reeditar imagens de seus filmes da série Tulse Luper com música ao vivo, num “live act” que, ele espera, levará o público a dançar. Para isso ele usará equipamentos com touch screen, pelos quais é possível projetar e misturar imagens em grande escala com o toque dos dedos sobre uma tela de monitor. Além disso, o Videobrasil promoverá palestra e mostra de filmes do artista.

Greenaway se tornou conhecido mundialmente pelos filmes que realizou em suporte e formato mais ou menos tradicionais entre as décadas de 80 e 90, como “O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante” e “O Livro de Cabeceira”. Esses títulos alimentaram no autor uma frustração com os limites do cinema, e isso o levou às experimentações dos últimos anos.

Perguntado se o seu novo cinema “ao vivo” se aproxima do teatro, ele diz que sua fonte de inspiração é a pintura. “Eu acredito que os pintores Caravaggio, Velázquez e Rembrandt foram os inventores do cinema, três séculos antes dos irmãos Lumière”, diz Greenaway. “Estão ali a dramaticidade e o jogo de luz e sombra que fizeram a grandeza do cinema narrativo nos anos 30 e 40. E é esse aspecto sensorial que o espectador absorve, muito mais do que a estrutura romanesca.”

Rembrandt é o inspirador do próximo filme de Greenaway, cujo título é o mesmo da obra mais célebre do pintor holandês, “A Ronda Noturna”. O cineasta quis levar para as imagens em movimento sua convivência intensa com o quadro, que está exposto do outro lado da rua onde ele mora em Amsterdã. “A Ronda Noturna” estréia no Festival de Veneza, no fim de agosto.

Sobre o filme que pretende realizar em São Paulo, ele adianta que tratará de erotismo ou pornografia. Greenaway escolheu o Brasil para filmá-lo porque se sente fascinado pelo que qualifica de tensão entre a cultura católica e a liberdade de costumes existente no país.

Notícia publicada no Uol Cinema, no dia 09/07/2007


próximo filme: A Última Tempestade

09/08/2009

Dia 31 de agosto, às 18h30, no miniauditório do Campus Curitiba da UTFPR.

Ficha técnica de A Última Tempestade

Direção: Peter Greenaway
Ano: 1991
País: Japão, Itália, Holanda, França, Inglaterra
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 124 min. / cor
Título Original: Prospero’s Books
Elenco: John Gielgud, Michael Clark, Michel Blanc, Erland Josephson, Isabelle Pasco, Tom Bell, Kenneth Cranham, Mark Rylance, Pierre Bokma, Gerard Thoolen

Sinopse: Adaptação da obra de William Shakespeare, com experimentalismos e belas imagens. Próspero vive numa ilha com sua filha Miranda, após ter sido banido pelo Rei de Nápoles. Mas o destino faz com que seus inimigos venham a sua ilha, dando início a um romance proibido e a uma série de conspirações e vinganças.


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