Mais uma entrevista com Otto Guerra

20/09/2010

Omelete entrevista: Otto Guerra, diretor de Wood & Stock*

O gaúcho Otto Guerra esteve em São Paulo na época do Animamundi. Veio mostrar seu trabalho mais recente Wood & Stock – Sexo, Orégano e Rock ´n Roll. No meio de sua agenda cheia de compromissos, ele parou um tempinho para trocar uma idéia com o Omelete. O lugar marcado foi o Bar Brahma, na esquina da Ipiranga com a São João, um dos cruzamentos mais conhecidos do Brasil. E o que era para ser um bate-papo rápido sobre o filme acabou virando uma longa e prazerosa conversa de quase uma hora. Do tema principal vieram à tona discussões sobre os processos de produção e distribuição dos filmes no país. Tudo colocado de maneira simples e bem humorada, claro! Até do caso que ele teve com o Angeli ele falou… ;-)

De onde veio a idéia do longa?

A idéia vem de uns dez anos atrás, quando fiz um filme chamado Rocky & Hudson – Os caubóis gays, que também é baseado em quadrinhos. Naquela época o Adão [Iturrusgarai], autor do Rock & Hudson, veio morar em São Paulo e acabou ficando muito amigo do Angeli, quando trabalhou com ele, Laerte e Glauco, fazendo Los três amigos. E como fã do Angeli eu achava muito legal pegar o universo do cara e tentar transpor para um filme.

A idéia já tem estes dez anos, mas começamos a roteirizar e efetivar o projeto de fato em 2000, quando a gente ganhou um prêmio chamado B.O. (Baixo Orçamento), do Ministério da Cultura, para produção de cinema e conseguimos 50% do orçamento.

Por ser uma história baseada em tiras de quadrinhos, tivemos um problema incrível para escrever o roteiro. Foram pelo menos dois anos de roteirização. A gente queria que não traísse o universo do cara, que conseguisse reproduzir sua obra. Considero o Angeli um gênio e por isso foi muito difícil. O próprio Angeli dizia que a gente ia fazer uma coisa meio Turma da Mônica, por ser animação. Ele viu o filme no Festival de Recife e gostou. Eu estava na sessão e fiquei reparando o rosto dele e tal. A gente conseguiu trazer para a tela uma adaptação quase fiel ao trabalho do cara.
Continue lendo »

Anúncios

Meio live-action e meio animação, próximo longa de Folman adaptará romance de ficção científica

16/05/2010

Notícia do site omelete, de 14 de abril de 2010.

The Futurological Congress: Adaptação da obra de Stanislaw Lem tem primeiro vídeo

Diretor de Valsa com Bashir adapta com Robin Wright o romance de ficção científica

The Futurological Congress, romance de ficção científica escrito pelo polonês Stanislaw Lem, autor de Solaris, está virando um longa-metragem nas mãos do israelense Ari Folman, vencedor do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro por Valsa com Bashir. Um vídeo com imagens do filme acaba de cair na rede.

Veja abaixo uma prévia com cenas do longa – que, quando finalizado, será meio live-action, meio animação – e um depoimento de Folman.

A trama do filme adapta livremente a obra de Lem. A atriz Robin Wright (Beowulf) interpreta uma atriz cuja carreira está em decadência que acaba transportada para o futuro, quando todo mundo usa drogas psicotrópicas e as alucinações substituíram a realidade. No filme, a viagem ao futuro marca a passagem do live-action para a animação.

O filme ainda está sendo produzido e não tem data de lançamento definida.


Crítica de As Bicicletas de Belleville no site omelete

08/04/2010

Por Marcelo Hessel

Há um humor em extinção. Trata-se daquela comédia física elegante, de gags paulatinas e inventivas, de pouco ou nenhum diálogo, mas que esconde em suas entrelinhas uma eloqüente visão crítica do mundo. É o humor de Monsieur Hulot, a criação mais célebre de um mestre do gênero, o francês Jacques Tati (1909-1982). Se esse tipo de riso caiu em desuso, talvez seja pelo fato dos dias grosseiros atuais não aceitarem mais aquela defesa desengonçada da ingenuidade, contra o consumismo e a modernização insípida do cotidiano.

Por outro lado, se um longa de animação quase mudo, como o francês revivalista As Bicicletas de Belleville (Les Triplettes de Belleville , 2003), consegue cativar o mundo e ser indicado ao Oscar da categoria, ainda há salvação para a humanidade.

Trata-se de uma obra escorada na tradição de Tati. Repare na trama: depois de treinar com apito em punho o seu neto ciclista para a famosa Tour De France , a velhinha Madame Souza o vê seqüestrado durante a corrida por mafiosos ítalo-americanos; atravessa, então, o oceano acompanhada por seu cachorro Bruno em um pedalinho, chega a Belleville, consegue o auxílio de idosas trigêmeas cantoras de cabaré e tenta libertar o ciclista escravizado numa arena clandestina de apostas.

Estreante em longas-metragens, o animador Sylvain Chomet põe em prática tudo o que aprendeu em quarenta anos de vida e duas décadas de devoção aos quadrinhos e aos desenhos. Assim, o visual já espanta, de cara, pela mistura impressionantemente harmoniosa entre o tradicionalismo artesanal e os artifícios tridimensionais.

A sua temática nostálgica também se evidencia logo na introdução: um número de cabaré típico dos anos 30 é desenhado com os mesmos traços em preto-e-branco dos clássicos da época. Fica igualmente latente a sátira aos norte-americanos gordos e comilões – idéia que Chomet já desenvolvia no seu curta anterior, La Vieille dame et les pigeons (1998) – e aos tipos consagrados de Hollywood, como os mafiosos e os seus capangas motorizados. Sobra até uma gozação com a chuva de sapos de Magnólia (de Paul Thomas Anderson, 1999).

E a animação não se limita a resgatar o tema clássico de Hulot, a aversão à selvageria industrial. Chomet faz questão de citar os trabalhos de Tati. No quarto das trigêmeas – as triplets do título original -, o pôster de As Férias do Monsieur Hulot (Les Vacances de M. Hulot , 1953) está pendurado na parede. Na cama, as irmãs se esbaldam de rir assistindo a Escola de Carteiros (LÉcole des facteurs, 1947), um dos melhores curtas do diretor. E a engenhoca que mantém ciclistas pedalando na arena de apostas foi evidentemente inspirada nas bicicletas adaptadas que ensinam os carteiros a pilotar no curta.

“Mas se sobram referências e curiosidades, o que faz da animação algo distinto?”, você pode perguntar. Pois em nenhum momento as citações suplantam aquilo que Chomet tem de mais autoral: as situações originais, as piadas inventivas, o carinho pelos personagens, a técnica bem lapidada e a narrativa tensa. Além disso, o animador toma tão bem a apologia da simplicidade para si que torna As Bicicletas de Belleville singular.

Pode não salvar o humor ingênuo, mas ao menos alimentará muito bem os seus fãs.

Texto retirado daqui.


Entrevista com Marjane Satrapi (diretora) e Chiara Mastroianni (atriz), de Persépolis

16/09/2009

Entrevista retirada do site omelete

O Omelete teve a honra de conversar com Marjane Satrapi, autora – e personagem – da história em quadrinhos Persépolis, que ela mesma, ao lado de Vincent Paronnaud, adaptou ao cinema. Confira abaixo a entrevista com a expressiva iraniana,  que foi acompanhada pela bela atriz francesa Chiara Mastroianni  (filha dos ícones Catherine Deneuve – que também está no filme, como a mãe de Marjane – e Marcello Mastroianni), que dubla a Marjane adolescente e adulta na animação.

O filme tem obtido diversas indicações e prêmios. Isso foi uma surpresa?
MARJANE SATRAPI: Foi sim. Três anos atrás eu conversei com meu melhor amigo [Vincent Paronnaud] e perguntei se ele queria fazer o filme comigo. Montamos o estúdio em Paris e reunimos todos os nossos amigos para fazê-lo. Foi um trabalho de amizade essa animação preto e branco – e aí subitamente ela ficou pronta e recebemos uma indicação para Cannes [o filme empatou com Stellet Licht na categoria Prêmio do Júri]. Sabe? Um filme feito com o que tínhamos à mão… foi incrível. Estou muito honrada e feliz e não esperava toda essa atenção.

CHIARA MASTROIANNI: Eu falei pra Marjane que ela devia começar a montar um clipping ou coisa assim. A lista está ficando grande! É uma enorme surpresa, sem dúvida. Quando começamos era algo pequeno e entre um pequeno grupo de pessoas – e agora ele está solto por aí, circulando o mundo e as pessoas estão adorando e dando prêmios a ele… é a cereja no bolo!
Continue lendo »


Persépolis – A história em quadrinhos

07/09/2009

A Revolução Islâmica pelos olhos de Marji

Persépolis é a história de Marjane Satrapi, uma iraniana que viu seu país ser virado do avesso a partir de 1979, com a revolução islâmica. Em questão de meses o Irã entrou numa onda de conservadorismo e repressão que fez o país se fechar para o resto do mundo e empurrou-o, em muitos aspectos, de volta à Idade Média.

Para Marji, a Marjane Satrapi de 10 anos, isto significou ir para uma escola diferente, onde ela não poderia mais aprender francês (uma ameaça aos valores da revolução) e meninos ficavam separados das meninas. Como toda mulher, ela também foi obrigada a usar o véu. Imagine gente na TV dizendo “o cabelo das mulheres contém raios que excitam os homens; elas devem escondê-lo!” Andar com jaqueta jeans e tênis pelas ruas, como numa das histórias do volume 2, levou Marji a um interrogatório de uma patrulha de senhoras pró-revolução.

Mas isso é detalhe perto do que acontece no resto do país. Os pais de Marji, intelectuais liberais com alguns vínculos com o governo anterior, começam a perder amigos, que misteriosamente desaparecem. Vizinhos e parentes fogem enquanto podem (o país fecha suas fronteiras em 1981). Com o início da guerra contra o Iraque, em 1980, uma bomba pode repentinamente cair no seu bairro. O terror e a falta de perspectiva tomam conta.

Satrapi começou a publicar suas memórias na França em 2002. Persépolis saiu originalmente, lá e aqui, em 4 volumes: os dois primeiros sobre a infância e pré-adolescência de Marji, o terceiro sobre seu exílio na Europa (os pais acreditam que ela terá uma educação melhor fora do país) e o quarto sobre seu retorno ao Irã para cursar a universidade. O material foi recentemente reunido no Brasil pela Companhia das Letras em uma edição única.

A autora ainda tem outros álbuns publicados lá fora, como o elogiadíssimo Poulet aux Prunes (Frango com Passas), também com toques autobiográficos – e que a Companhia das Letras também tem planos de publicar.

Em meio a toda tristeza da situação do Irã, a biografia de Satrapi é forte ao revelar o que é ser um civil no meio de uma revolução, de uma transformação cultural violenta e de uma guerra. Um boneco que não pode fazer nada, sujeito aos desígnios de governantes, que parecem insanos. Mas, no clima de terror e incerteza do país, Marji e sua família ainda encontram tempo para rir. São estes momentos, de humor no meio do caos (às vezes um tanto nervoso), que tornam Persépolis imperdível.

Texto de Érico Assis, publicado no omelete.


%d blogueiros gostam disto: