Waking Life, de Richard Linklater*

07/10/2010

É sempre meio preocupante quando o atrativo principal de um filme parece vir de uma sacada técnica, algo que o torna “único”. Ficamos preocupados acima de tudo se ele escapa destas amarras de forma e consegue adequar seu conteúdo ao que mostra, ou seria melhor dizer, se o que ele quer dizer precisa daquela forma “nova”. No caso deste trabalho de Linklater o grande destaque seria tratar-se de uma animação de um não-animador. Funciona assim: Linklater filmou de fato um longa, com atores. Mas, não é isso que vemos na tela. Ele pegou esta história e levou para diferentes animadores, que desenharam em cima destas imagens, criando uma estranha combinação de realismo e artificialidade. Então a pergunta é: funciona?

Funciona sim, e principalmente porque dá para entender a motivação de Linklater. Seu filme é nada mais nada menos do que um grande sonho. Este é o tema do filme aliás: sonhos, vida, morte, cinema. E o formato narrativo, embora demore a se desvendar claramente, é o do sonho. Assistimos a um longo sonho de um personagem. Pois bem, sonhos são assim: as coisas parecem ser de verdade, possuem grande semelhança com a verdade, mas as coisas mais estranhas e ilógicas e contra as leis da física podem acontecer a qualquer momento. Para reproduzir esta sensação Linklater optou pelo toque de irrealidade da animação, mas com o fundo real, físico, dos atores. Funciona.

E quanto ao que é dito, o que este sonho mostra? Bem, aí o filme é um certo pulo no escuro. Porque trata-se de fato de um longo devaneio filosófico sobre a vida e a morte, o sentido delas, nossa percepção, o cinema como meio de expressão, em suma, uma infinidade de coisas. Em termos narrativos, personagens entram e saem de cena o tempo todo, falam de forma ininterrupta e caudalosa, teorizam e citam, discutem. Torna-se um filme complicado porque nos perguntamos qual o seu público. O mais tradicional do cinemão rejeitará seus pressupostos muito pouco narrativos, sua falação teórica interminável. Os mais cultos sentirão que estão sendo passados para trás por uma simplificação de uma série de noções filosóficas, usadas de uma forma bem popular.

Mas, este dilema é ilusório. Porque parte de dois preconceitos: o de que filosofia e questões mais sérias sobre a existência só comportam discussões embasadas de grandes teóricos e mestres, como se fossem uma coisa distante da vida do dia a dia, enclausurada na academia. O segundo é que o público só pode ser um ou outro: culto ou popularesco. Na verdade o possível público do filme pode ser comparado com fenômeno literário que foi O Mundo de Sofia, do dinamarquês Jostein Gaarner. Ou seja, um texto que trabalhava a filosofia para as massas, que tentava trazer a história da filosofia (assunto comumente considerado hermético) para as pessoas em geral. Desnecessário lembrar o sucesso que fez, inesperado. Waking Life caminha nesta linha. Quer ser sério sem ser engessado ou se achando extremamente importante por isso. Ganha pontos pela ousadia de não se deixar intimidar pelas patrulhas, e por conseguir injetar humor no seu questionamento. É certamente um filme diferente, que vai receber críticas de todos os lados, mas os que tenham menos preconceitos simplesmente poderão exercitar a diversão sem deixarem de ser sérios. Por quê temos sempre que optar por um ou outro?

Eduardo Valente

* Texto publicado no site da revista de cinema Contracampo.

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