Jogo de cena*

Um palco de teatro, no qual várias mulheres são filmadas, uma de cada vez, sentadas em uma cadeira. De costas para uma plateia vazia, elas contam histórias em primeira pessoa. É assim que é “Jogo de Cena”. A produção não poderia ser mais simples. Mas as discussões que o filme é capaz de levantar são bastante complexas.

Qual é a ideia? Foi feito um anúncio em jornal convocando mulheres a realizarem um teste para participar de um documentário. Era necessário apenas ter histórias para contar. Oitenta e três foram entrevistadas e, destas, vinte e três selecionadas para gravarem seus depoimentos no Teatro Glauce Rocha. Três meses depois, atrizes foram convocadas a interpretar, a seu modo, as histórias daquelas mulheres.

Com esta premissa, Eduardo Coutinho vai nos mostrando o limiar entre realidade e ficção: depoimentos reais são intercalados com interpretações. Começamos a nos indagar quem é a pessoa realmente “dona” da história, e quem está atuando? Ao nos depararmos com os rostos de algumas atrizes conhecidas, fica claro saber quem está “mentindo”, ainda mais que elas inclusive chegam a fazer comentários sobre a atuação. Mas em outros casos, fica difícil desconfiar que aqueles depoimentos não sejam verdadeiros.

A partir disso, questões mais complexas sobre real e representação podem ser levantadas. Por exemplo, não existem garantias que em um depoimento “real”, aquela pessoa não tenha exagerado em algumas partes da história, ou até mesmo incluído detalhes para torná-la mais interessante. Da mesma forma, quem pode dizer que uma atriz não teve sentimentos verdadeiros ao interpretar um texto que não lhe pertence, mas que lhe toca?

O próprio Coutinho afirma que mais importante do que o tema de um documentário, é a maneira como esse tema é tratado. Em “Jogo de Cena”, essa ideia fica bastante clara: uma hora, percebemos que o importante não é mais quem está falando a verdade ou quem está mentindo, mas sim sentir a maneira que as mensagens são transmitidas.

Afinal, se pararmos para pensar, todos nós interpretamos personagens em nosso dia a dia, em maior ou menor grau. No fim, o que interessa é a força que transmitimos nas histórias que contamos. Reais ou não.

*Andrea Mayumi Maciel escreveu este texto. Trata-se do programa distribuído durante exibição de “Jogo de Cena”, no dia 27 de setembro de 2011.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: