Ouvir o Cinema

Por Yves Moura – escrito durante o Festival de Gramado de 2007, para o Almanaque Virtual

Um dos maiores gênios do cinema nacional, também chamado de “O Papa do documentário”, Eduardo Coutinho apresenta seu novo trabalho neste 35° Festival de Cinema de Gramado. Como o diretor está sendo homenageado nesta edição do festival, seu novo filme, Jogo de Cena (2007), está fora da competição.

Os documentários de Coutinho sempre chamam a atenção por seu embasamento sociológico, em que seus entrevistados se abrem completamente diante do entrevistador e pela imensa quantidade de entrevistas realizadas. Jogo de Cena não é diferente, mas parte de uma premissa inusitada: com um anúncio de jornal, o diretor convida mulheres a darem depoimentos contando suas histórias de vida. Ao todo, 83 mulheres responderam ao anúncio. Depois, vinte e três foram selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha. Três meses depois, algumas atrizes receberam o texto e o DVD das personagens escolhidas para interpretar, a seu modo, as histórias contadas. E Coutinho coloca os dois depoimentos, tanto o real como o interpretado.

O documentarista Coutinho acaba criando um longa que trata de inúmeros assuntos que vão desde as atrizes comentando o método de memória emotiva de Stanislavski (o mais famoso teórico sobre direção de atores) até a exclusão social, preconceito, e gravidez na adolescência e, principalmente, discussões sobre relações familiares. Muitos depoimentos se confundem, até mesmo as atrizes famosas contam suas histórias e as menos famosas se perdem por entre as anônimas, de forma que nunca temos certeza de quem eram as atrizes e quem eram as entrevistadas. Estas acabam mexendo com as atrizes de maneira que elas nunca conseguem ser indiferentes ao texto.

Entre as mais conhecidas temos as veteranas Marília Pêra, Andréa Beltrão e Fernanda Torres, que, aliás, tem um dos melhores momentos do longa, insatisfeita com sua interpretação e inconformada em não conseguir alcançar o tom certo da “personagem”. Beltrão também tem momentos ótimos durante seu depoimento/interpretação, quando começa a chorar no meio da entrevista e, ao final desta, revela que não tinha o choro programado.

A busca em seus entrevistados por intimidades, rendem lições, derrotas, amores e vitórias. Ninguém penetra melhor na alma de um entrevistado de forma que a imagem sirva apenas como um elo entre o espectador e os depoentes. O diretor está interessado em seus discursos, que nos atingem com tamanha emoção, incomum ao gênero documentário. Eduardo Coutinho nos proporciona um prazer único: ouvir o cinema.

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