Mudanças, novidades. Quem nunca sentiu essa necessidade pelo menos em algum momento de sua vida? Aquela estranha sensação de que tudo está relativamente bem, como sempre, mas que falta uma coisa, uma coisa dessas de tirar o fôlego, sabe? Ou que te faz suspirar, sorrir com os olhos. Essa necessidade, é a necessidade do novo, do encantamento que nos move. É essa mesma que move Jack Skellington, personagem da animação O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Chistmas) que é um desses filmes, uma dessas coisas, que te faz suspirar.
O Estranho Mundo de Jack é um trabalho tão comovente, que mexe com aquelas lacunas que às vezes deixamos empoeirar sobre prateleiras da saudade, da falta que faz tudo aquilo que nos importávamos na infância. Por isso, guardá-lo em uma gaveta (ou gênero) infantil, musical, até mesmo terror, é limitar as possibilidades de leitura que este trabalho proporciona.
Idealizado por Tim Burton, ainda um novato no início da década de oitenta, recusado vezes seguidas pelas produtoras, só foi de fato produzido uma década depois. O filme é de 1993, dirigido por Henry Selick – diretor de James e o Pêssego Gigante (1996) e Coraline e o Mundo Secreto (2009) – e produzido por Tim Burton e Denise DiNovi, além de contar com uma riquíssima trilha sonora, realizada por Danny Elfman, grande parceiro de Tim Burton em outras produções de sucesso, como Beetle Juice (1988), Edward Mãos de tesoura (1990), Marte Ataca (1996) e Peixe Grande e suas histórias maravilhosas (2003). As canções conseguem transmitir a ludicidade do natal, do encanto, da descoberta, assim como a melancolia da incerteza, da falta de sucesso.
O filme é realizado em stop motion, técnica de animação em que um objeto é movimentado milimetricamente e fotografado quadro a quadro, que quando reunidos proporcionam movimento. O Estranho mundo de Jack levou cerca de três anos para ser concluído. Conta com cenários fantásticos e sombrios, personagens macabros e carismáticos, e um humor negro de primeira, que já trazem o que seria a marca de Tim Burton. Um trabalho manual, que preza pela delicadeza dos detalhes, que não podemos deixar passar: os grandes cílios e as costuras de Sally, o nariz reluzente do cachorro fantasma, a neve, deliciosamente, brilhante da Cidade do Natal (Christmas Town), os guarda-chuvas dos vampiros, ou ainda as janelas com linhas sinuosas (quase que no estilo Art Noveau) da Cidade do Halloween (Halloween Town).
Todo esse primor é para contar a história de um esqueleto, Jack, que vive na Cidade do Halloween, e que, cansado das mesmas coisas, numa dessas andanças da vida, encontra a Cidade do Natal, onde laços, afagos, bochechas rosadas e presentes preenchem as casas. Então ele acredita ter encontrado uma nova razão, um novo desafio, que leva para sua cidade, a fim de produzir o natal, sem entender muito bem o que significa.
Talvez a grande questão no filme sejam os diferentes significados que nós temos para as mesmas coisas. Ou sobre o que é diferente, o quanto estamos acostumados a determinadas regras, que não aceitamos a novidade. Ou ainda, o fato de que às vezes temos que retornar ao que já fomos para, quem sabe, entender o que somos e preencher as tais lacunas deixadas pelo tempo. O bom mesmo é fazer a leitura que desejarmos. E se Jack tem sucesso nessa empreitada ou não? Vamos ao filme!
*Ivana Lemos e Sol Sloboda escreveram este texto. Trata-se do programa distribuído durante exibição de “O Estranho Mundo de Jack”, no dia 31 de março de 2010.
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