Ele não está lá?*

A princípio, o que eu sabia sobre I’m not there, do diretor Todd Haynes de 2007, é que seria um filme sobre o cantor Bob Dylan. E sabia lendo as críticas, ouvindo a mídia e os amigos. Claro, nunca questionei que não seria também.
O início do filme mostra uma câmera subjetiva que sai do foco de um cigarro, nos conduz por um corredor, sobe uma escada enquanto ouvimos muitas vozes que clamam por alguém. Tudo isso nos leva a um suposto palco que ao ser atingido se perde em meio a fumaça e à luz. Logo se conclui: é um filme sobre o cantor mesmo!
Então, na sequencia, Haynes apresenta seis personagens em tempos e propostas variadas. Nenhuma tem ligação com a outra, cada qual vive seu drama em histórias e tempos variados dentro do mesmo filme.
Na narrativa, os pulos no tempo são tão normais quanto a existência destas variadas pessoas dentro das diferentes épocas mostradas, vivendo também dramas múltiplos. É preciso aceitar isso logo no início para que você consiga aproveitar ao máximo as emoções causadas pela poética película.
Ainda aqui acredito que é sobre o cantor; mas quem é essa pessoa que tem o caráter tão extraordinário que pode ser subdividido em tantas outras pessoas de idades, aparências e locais diferentes? Como uma pessoa pode ter estado em tantos lugares, ter convivido com tantas pessoas e ter tantas histórias para contar? E como tantas pessoas podem ter histórias para contar sobre esse indivíduo? Seria um lunático, um esquizofrênico, um ator, um escritor? Que pessoa consegue criar uma ilusão de se ter vivido tantas vidas em apenas uma? E, seria mesmo uma vida? E, seria mesmo uma única pessoa ou um mito, uma lenda passada de geração em geração? Existe alguma verdade nisso tudo? (Continuo na dúvida. Não em dúvida sobre a qualidade do filme, mas sobre o que não está no filme).
A única certeza do que vamos ver em I’m not there é a de que ao adentrá-lo iremos conhecer várias histórias. São sobre uma pessoa? Não sei. Se são sobre Bob Dylan? Não sei. O diretor diz que sim. Se são verdade ou não… quem pode confirmar?
É difícil falar sobre uma pessoa que não conhecemos (e eu não conheço a história do Bob Dylan). Fomos apresentados por meio da epifania um terceiro. Terceiro que também não conheceu pessoalmente o cantor, contudo teve sua obra autorizada pelo próprio. Haynes nos conta as lendas sobre uma lenda, segundo sua ótica.
Vale lembrar que estes personagens tem vários nomes, mas nunca o de Dylan. Talvez por isso ele não esteja lá. Será? “Afinal de contas uma canção (ou uma história) é uma coisa que anda por si só”.

*Graciele de Mello escreveu este texto. Trata-se do programa distribuído durante exibição de “Não estou lá”, no dia 13 de dezembro de 2011.

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