F for Fake: a arte e o documentário em questão*

Verdade ou mentira? De que se trata a arte? Um quadro falsificado é menos pintura do que um quadro autêntico? Um documentário que conta mentiras em meio a verdades é menos documentário por causa disso?

F for Fake (1973), de Orson Welles, é apresentado como um filme sobre trapaça, fraude e mentiras. Mas é também um filme sobre arte, discutindo o que a torna valiosa, e discutindo também o próprio estatuto do documentário. A história central é a do falsificador de pinturas Elmyr Ferrin Hoffman e do seu biógrafo Clifford Irving, que escreveu uma falsa biografia sobre o magnata e aviador norte-americano Howard Hughes.

O filme começa de forma bem sugestiva. O próprio Orson Welles aparece fazendo um truque de mágica, transformando uma chave em moeda. A atriz Oja Kodar, que no final voltará à cena, surge e chama a atenção para o truque, enquanto o diretor admite ser mesmo um charlatão. A chave do número de mágica não é simbólica, diz Welles, pois “este não é esse tipo de filme”. Em uma introdução ao filme, o diretor afirma que quase toda história contada é um tipo de mentira. Mas neste filme, não. Tudo que veremos, promete, é verdade e baseado em fatos sólidos. Acreditamos nele e seguimos assistindo.

Welles vai, então, entrelaçando as histórias de Elmyr, Irving e Howard Hughes à sua própria. Elmyr e Irving são falsários, mas o que dizer de Hughes, um ermitão que utiliza vários sósias? O que dizer do próprio Welles, que inicia a carreira em Dublin contando que era um ator famoso em Nova York e que, mais tarde, foi responsável por “A Guerra dos Mundos”, adaptação muito realista para o rádio de um romance que narrava um ataque marciano? No fim das contas, somos todos, ao menos um pouco, charlatões?

E o valor da arte? Onde está? Se existe valor, veremos, existe opinião. E se existe opinião, existem experts, legitimadores de obras de arte. Mas Elmyr conta que nunca teve um quadro recusado, todas suas falsificações foram legitimadas por negociantes de arte e diretores de museus. O valor está na autenticidade? Ou, como diz Irving, “a questão sobre uma pintura não é se ela é boa ou ruim, mas se ela é uma boa ou má falsificação”? Se experts não puderem provar a falsificação de um quadro, ele não se torna então um quadro autêntico? Aliás, por que existem as falsificações? Porque há um mercado de arte que as comporta, nos responderão.

Voltando ao início do filme, vemos uma equipe e uma câmera filmando e somos apresentados ao produtor François Reinchenbach. O documentário faz questão de assumir, desde o início, o fato de que é uma narrativa construída (um parêntese: o roteiro é do diretor em parceria com Oja Kodar). Estão expostos Welles, Reinchenbach, Kodar, câmera, rolo de filme, telas… Como se quisessem nos dizer, o tempo todo, que documentários não são a realidade, não retratam, de fato, uma verdade. Trata-se, isto sim, de um olhar possível. Como toda obra de arte.

“Todos sabemos que a arte não é verdade. Ela representa a mentira que nos faz perceber a verdade; pelo menos a verdade que nos é dado entender” – Pablo Picasso.

 

*Tássia Arouche escreveu este texto. Trata-se do programa distribuído durante exibição de “F for Fake”, no dia 29 de novembro de 2011.

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